POLITIQUESE

Fichamento de “Teoria da Cultura Política: vícios e virtudes”, de Lúcio Rennó | 28 de abril de 2011

O presente texto é uma resenha e pode ser reproduzido em sua íntegra, desde que citados a fonte e o autor.

Fichamento de “Teoria da Cultura Política: vícios e virtudes”, de Lúcio Rennó

Eric Vellone Coló

O artigo do professor Lúcio Rennó quer trabalhar com as visões e críticas em relação aos estudos da teoria de cultura política. O trabalho vai se enveredar especialmente pela relação entre cultura e estrutura político-social. Os conceitos e categorias utilizados no debate já se encontram nos trabalhos de autores históricos de ciência política, tais como Maquiavel, Montesquieu, Rousseau, Tocqueville, Platão e Aristóteles. Para tal análise, o autor se vale como guia durante o trabalho principalmente o texto The Civic Culture, de Gabriel Almond e Sidney Verba.

Historicamente, o autor afirma que esta corrente da cultura política ganhou força nos anos 60 devido à desilusão, devido às expectativas iluministas e liberais que trouxeram expectativas de progresso moral e material como algo inevitável, e que a I Guerra Mundial teria frustrado tais expectativas; e também devido à ascensão de técnicas de pesquisa e métodos mais confiáveis, a exemplo do survey, que trataram com maior objetividade os “testes empíricos para as especulações teóricas” da questão.

A cultura política passa a ser estudada então dentro do que, segundo Almond, é sua principal definição: “conjunto de orientações subjetivas de determinada população”, que inclui os temas de crenças, sentimentos e compromissos com valores políticos e coma própria realidade política. Ainda na linha de raciocínio de Almond, o conteúdo desta cultura é “resultado da socialização na infância, da educação, da exposição aos meios de comunicação, experiências adultas com o governo, com a sociedade e com o desempenho econômico do país”. A intenção é estreitar a relação entre cultura política, estrutura e desempenho governamental e analisá-las segundo dados dos surveys para demonstrar o quanto variáveis como experiência histórica e valores culturais têm mais ou menos peso nestas composições finais. O mais importante para o autor é verificar que os conceitos da teoria da cultura política passaram a ser muito utilizados e até mesmo aceitos. O trabalho tido como clássico The Civic Culture fica situado entre o fim da década de 50 e início dos anos 60, pois o texto vai afirmar que em 60 e 70 tanto direita quanto esquerda argumentaram contra esta abordagem culturalista usando uma suposta preponderância dos aspectos materiais sobre atitudes e valores, que remeteriam a uma “falsa consciência”. Ainda na crítica, o texto não deixa de citar a teoria da escolha racional como argumento da direita. O cálculo custo/benefício feito através de instrumentos da economia e de pressupostos de “atores racionais e maximizadores de curto prazo” daria conta de explicar as motivações das ações. Cultura política vista como um dado e não como uma problemática.

Ainda historicamente, o texto relata que, passados estes anos de crítica, a ciência política marxista passa a “aceitar conceitos como o pluralismo, autonomia governamental, inter-relação entre estrutura econômica e política e importância de valores e atitudes no funcionamento das instituições políticas e econômicas” e também a direita contextualiza a racionalidade passando a observar “regras, modelos e crenças”. O período de revitalização da cultura política traz, através de estudos sociológicos, de psicologia social e de psico-antropologia, a defesa da importância da orientação subjetiva para as mudanças que estão na estruturas. A pesquisa resvala, então, na estabilidade democrática, pois os elementos combinados resultam em sucesso do regime em determinados países e fracasso em outros.

Para retomar e criticar o texto The Civic Culture, Lúcio Rennó lembra que a obra adotou o modelo liberal democrático de cidadania, que prevê um cidadão ao mesmo tempo atuante e informado na vida política, porém propenso “à passividade confiança e deferência à autoridade”. O foco é elitista e realista, quando “qualidades individuais de civilidade, tradição e tolerância das elites e a apatia moderada e deferência das massas”. As críticas residem nos conteúdos das culturas políticas, dúvidas sobre a separação entre cultura política e estrutura política e ainda dúvidas sobre o caráter causal dessa relação.

No decorrer do debate, o texto ressalta uma visão de Street (1993) na qual a definição sobre cultura política deveria fornecer “subsídios que comprovem a relevância dos aspectos culturais para a explicação do comportamento político”. Nesta linha, os aspectos culturais influenciam diretamente legitimidade e identidade, discussões afloradas com o colapso de regimes socialistas e ascensão dos nacionalismos. É esta linha de argumentação que conduz à crítica em relação à obra de Almond e Verba, pois Street não vê em The Civic Culture uma descrição clara da relação entre cultura política e estrutura política. Dentro de cada país analisado no livro não são analisadas as origens da cultura. A “crítica dura” sustenta que cultura política é apenas efeito da estrutura política, sendo essa, portanto, variável independente. A interdependência entre os termos leva a uma mútua influência, em outras palavras a “cultura muda em resposta ao desempenho do regime (…) influência de variáveis como mudanças sócio-econômicas (…) no comportamento e os valores da população”. O fato da socialização política ser citada não explica o fenômeno, a proposta de crítica se baseia na criação de uma ‘interconexão entre estrutura política e cultura política”, segundo Street esta visão “confere à cultura o papel de molde para a ação política”. É importante registrar que a crítica marxista, como não poderia deixar de ser, lembra da “falta de preocupação” com variáveis econômicas e políticas.

Assim que passada esta primeira revisão crítica, o texto de Rennó traz a teoria culturalista da política como a perspectiva contemporânea da discussão, em outras palavras, é a cultura condicionando as escolhas políticas. A abordagem culturalista tradicional de Almond e Verba pode ser criticada do ponto de vista de generalizar aspectos ocidentais e enviesar a postura através de lentes da modernidade, o que afirmaria “os países democráticos industrializados como mais acessíveis à formação de uma cultura cívica”. Para a conclusão de alternativas teóricas, o texto cita Chilcote para delinear o debate do papel da “socialização na formação da consciência de classe e visão humanista do marxismo” para que a questão cultural entre no cenário de politização.

Importante também é ressaltar que Diamond retruca a tentativa de cunhar o trabalho de Almond com o título de determinismo cultural, pois tal afirmação seria “incompatível com a mudança na cultura política, sendo essa uma das características do conceito de cultura política”, o que, na prática, afirma que seria impossível, portanto, que países atravessassem o processo de transição do autoritarismo para a democracia. Diamond continua sendo citado para demonstrar que a cadeia de causalidade da estabilidade democrática ainda não foi totalmente explicitada, mesmo porque a mudança cultural passa pelas elites governantes e influências entre novas instituições, configurações, valores e crenças. Na argumentação da transição Inglehart também é lembrado quando de seu argumento sobre as culturas políticas mudarem, entretanto alguns valores persistem dependendo de particularidades históricas e circunstanciais de algumas nações.

Kavanagh (1969) é arrolado para descriminar estas fontes de mudança: mudanças na configuração populacional, após experiências por longos anos de determinados períodos de paz e bem-estar; alterações geracionais que ocorrem nestes determinados intervalos de tempo; alterações no estilo de vida e suas preocupações; e mudanças culturais afetadas por alterações na estrutura política e econômica. Já no que diz respeito ao conteúdo destas mudanças, a construção da democracia estaria associada ao desenvolvimento político, pois “quanto mais prevalecem os valores de igualdade, liberdade, confiança mútua e comprometimentos com princípios universais, mais democrática e desenvolvida é uma sociedade”.

Para confrontar a proposição da escolha democrática o texto busca Lane (1992) ao afirmar que “a cultura política não é uma alternativa ao comportamento racional, mas sim um tipo de racionalidade – a racionalidade cultural (…) todo comportamento é motivado pela racionalidade econômica de curto prazo (…) o contexto cultural joga papel decisivo na definição de quais ações preferenciais”. Os valores e crenças (culturais) seriam parâmetros de cálculo de lucro. Mais uma vez salta aos olhos a importância dos estudos de survey para mensurar estas opiniões e dados a respeito do cotidiano do cidadão.

A conclusão, portanto, quer refutar visões que classificam culturas como “tipo ideal” (clara crítica à democracia liberal) e trazer à discussão o conceito de racionalidade cultural aliado à heterogeneidade cultural – nunca pondo totalmente de lado a teoria da escolha racional, mas sim as agregando – como fatores explicativos da cultura política. Ficam criadas, então, subculturas políticas que são carregadas de influências em suas estruturas econômicas, sociais e políticas.  “A atuação do indivíduo torna-se mais compreensível quando se conhece suas motivações interiores (…) influenciadas pelos valores culturais”. A interação entre indivíduo e sistema contextualizaria suas posições e esclareceria o cálculo de custo benefício feito no âmbito das possibilidades culturais dadas.

Eric Vellone Coló

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19 Comentários »

  1. O individuo precisa trazer suas experiencias, vivencias, para contextualizar com novas realidades.

    Comentário por Flavia Helena — 3 de abril de 2017 @ 14:21

  2. A cultura política se desenvolve a partir do crescimento intelectual e ético na construção da cidadania.

    Comentário por Márcio Roberto de Oliveira — 13 de abril de 2017 @ 8:19

  3. Republicou isso em Fernando Gaebler.

    Comentário por Fernando Gaebler — 25 de abril de 2017 @ 21:35

  4. …..”racionalidade cultural aliada à heterogeneidade cultural nunca pondo de lado a teoria da escolha racional”….

    Comentário por Silvia Aparecida Marasco — 28 de abril de 2017 @ 21:42

  5. Cultura política é acreditar que a riqueza do país é de propriedade do povo. e que deve ser ofertada e distribuída para tal. E não fazer seu povo escravo e mantenedor de poder e luxo dessa burguesia podre.

    Comentário por Marcos Santos — 30 de abril de 2017 @ 20:31

  6. Na minha opinião a cultura política é acreditar e fazer parte de todo contexto social, a fim de manifestar desejos e vontades, a afim de acreditar que o comportamento racional e a racionalidade das coisas andam de acordo com o contexto cultural como um todo.

    Comentário por Eliana Caires — 3 de maio de 2017 @ 8:47

  7. Na minha opinião, a cultura política é realizada quando o indivíduo passa a ter conhecimento do seu espaço e de sua realidade e passa a ter uma visão crítica e se posiciona diante dos problemas que o cerca.

    Comentário por Carlos Alberto Ramos — 3 de maio de 2017 @ 15:28

  8. A cultura politica cresce a partir do crescimento intelectual, onde o indivíduo passa ter conhecimentos da sua realidade e dos problemas que o cerca.

    Comentário por Vera Carvalho Lima — 3 de maio de 2017 @ 22:35

  9. Politica todos nos fazemos desde o momento que acordamos ate o momento que vamos dormir, então o que precisa e que o cidadão, precisa se envolver, conhecer a constiuição, lei organica dos municipios onde democraticamente falando poderá exercer a sua cidadania.

    Comentário por Vilma Bitencourt — 14 de maio de 2017 @ 13:09

  10. quanto mais democracia, mais cidadania

    Comentário por Lucio Augusto — 14 de maio de 2017 @ 21:58

  11. É preciso ter conhecimento, para praticar a democracia.

    Comentário por Maria Correa — 16 de maio de 2017 @ 22:34

  12. A DEMOCRACIA que não respeita o povo não é democracia!

    Comentário por Rosimeire Juliana Macedo — 26 de outubro de 2017 @ 9:07

  13. Todo indivíduo que atua para melhorias em prol de todos, precisa continuar com a motivação em prol de sua ação.

    Comentário por Solange Cabral — 2 de novembro de 2017 @ 20:08

  14. A cultura política de uma sociedade está relacionada com o sistema político e suas bases teóricas como incorporação inconsciente de certos padrões, idéias, atitudes, práticas, personalidade da pessoa ou da sociedade, o indivíduo passa a considerar como aprendizado, sentimento para suas percepções, escolhas e atuação na vida.

    Comentário por Paulo R Tamer (@paulotamer) — 3 de novembro de 2017 @ 14:22

  15. Na política,a ética estabelece os critérios de justiça ao bom governo e respeito a cidadania.Quando não colocada em prática,tem-se um país tragado pela corrupção,que visa somente interesse dos governantes.

    Comentário por Almira Marques — 25 de novembro de 2017 @ 8:28

  16. Infelizmente vivemos numa pseudo democracia , ainda estamos nas mãos dos governantes corruptos e sem ética.

    Comentário por Debora Seneme — 26 de novembro de 2017 @ 10:54

  17. Sistema educacional de qualidade para toda a população de uma sociedade , colabora para a construção e existência de uma cultura política permeada em verdadeiros valores éticos e democráticos.

    Comentário por Galileia Ap. Moura De Sousa — 2 de dezembro de 2017 @ 12:18

  18. Educação de qualidade e crítica política fundamentada. Devemos tentar separar as “crenças políticas” da realidade política. Especialmente nos dias de hoje, com tanto fake nas redes sociais, precisamos buscar informações fundamentadas.

    Comentário por Claudia Payao Biasetto — 3 de dezembro de 2017 @ 11:02

  19. A cultura política está diretamente relacionada à formação cultural do cidadão, quanto mais anos de estudos e quanto melhor for a sua formação crítica, melhor será sua “cultura política”. No Brasil, infelizmente, ainda há alto índice de analfabetismo e baixo índice de cidadãos com curso superior.

    Comentário por Eduardo José Biasetto — 3 de dezembro de 2017 @ 11:30


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