POLITIQUESE

Resenha de “Jornal Nacional, Democracia e Confiança nas Instituições Democráticas”,de Nuno Coimbra Mesquita, por Eric Vellone Coló | 20 de junho de 2011

O texto pode ser reproduzido em sua íntegra ou em partes, desde que sejam citados a fonte e o autor.

Resenha de “Jornal Nacional, Democracia e Confiança nas Instituições Democráticas”,de Nuno Coimbra Mesquita, por Eric Vellone Coló

Os meios de comunicação, quando analisados sob a ótica de suas temáticas abordadas e a interpretação dos fatos que faz, são fundamentais para a compreensão do esquema democrático. É exatamente nesta linha que se encontra o texto de Nuno Mesquita: o tema do relacionamento entre o telejornal e as atitudes políticas do público brasileiro é o alvo da abordagem. A questão é se os meios de comunicação, então, podem ser “culpados” por algum descrédito na democracia.

Para algumas explicações iniciais, o autor justifica a escolha do tema como uma colaboração no aumento das inferências acerca da influencia da “agenda” midiática sobre os cidadãos. No trabalho, o Jornal Nacional, atravésde sua agenda de conteúdo, foi o meio escolhido para a análise, devido principalmente a três dimensões: sua expressiva audiência (70% dos televisores ligados); a grande quantidade de televisores pelo país (93% das moradias têm televisão, segundo a PNAD); e ainda o fato de a televisão ser a principal fonte de informação sobre política para os cidadãos (65,4% preferem a TV). Em suma, quase 70% dos entrevistados afirmam assistir ao JN ao menos três vezes por semana. A análise do trabalho se baseia em agenda setting(quais os assuntos que serão abordados e discutidos) e o framing(que representa o “enquadramento” da notícia, ou seja, como ela vai ser abordada e que entendimento vai ser trabalhado na cobertura).

Para uma parte da literatura, são citados Porto, Patterson,Capella e Jamieson, a mídia teria, sim, um caráter “anti-institucional” que favoreceria a desconfiança e a falta de interesse na política. A cobertura da mídia dificultaria o apoio à democracia, pois a avaliação negativa do Congresso conduz para uma preferência da ditadura como regime político. Outro aspecto observado por essa corrente é o escasso tempo que os telejornais têm para debater política, o que impediria o desempenho total do papel de organizador de discussões públicas e condutor de agendas de políticas públicas. O cinismo e o sensacionalismo (“escândalos midiáticos”) também são arrolados como “causas” da desconfiança do público, pois os políticos são taxados de corruptos e motivados por interesses próprios.

É certo de que esta visão “negativa” não é a única defendida, pois existem autores, citando Norris e Newton, que preveem o constante maior acesso às informações como agente de majoração da cognição dos cidadãos. Exemplo disto é que a confiança nas instituições é positivamente associada com a leitura de jornais. Norris vê que a atenção da mídia para com os assuntos políticos colabora com o “engajamento cívico” do público, não o influenciando diretamente, mas tornando seus cidadãos mais confiantes.

Em seu trabalho, Mesquita trabalha com hipóteses acerca de um período bastante conturbado da crise política de 2005 vivida com denúncias de corrupção entre deputados e posterior criação de uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) sobre a compra de votos de políticos da base aliada. As hipóteses se questionam sobre se o JN focou sua agenda mais na crise do que em outros assuntos públicos; se nas notícias de temática pública prevaleceram “enquadramentos estratégicos”; e se houve associação entre audiência do telejornal e as atitudes negativas do público em relação à democracia e às instituições. Sua metodologia foi de uma pesquisa amostral entre 30 de 132 edições do Jornal Nacional do fim do ano de 2005 e a elaboração de uma tabela que distingue as classificações das matérias exibidas: variedades, assuntos públicos, outros assuntos de interesse público e internacional. Os assuntos públicos, tais como economia, eleições e política, foram divididos entre estratégicos (aquele que torna “saliente” o interesse pessoal do político e reforçam o cinismo) e temáticos (que se refere a uma descrição).

Já nos primeiros resultados, o autor mostra que os assuntos públicos e as variedades representam 85% das notícias, e que entre os assuntos públicos a primeira hipótese foi confirmada: 56% destas notícias eram sobre a crise da época (inclusive, somada a porcentagem de notícias de outras “corrupções”, este número chega a 70%). Outra conclusão dada é que 90,2% das matérias eram de cunho temático, ou seja, as questões foram postas mais como uma descrição factual do ocorrido, apresentando a denúncia e detalhando as investigações. É fato de que o contexto é negativo, porém as instituições públicas foram “poupadas” e o pouco cinismo que houve foi voltado a indivíduos. Em suma, o conteúdo (agenda setting) foi quase todo negativo, mas a interpretação (framing) não o foi. O sistema institucional não foi criticado e, até pelo contrário, foi chamada a atenção para os mecanismos ativos de accountability.

Nas tabelas seguintes, outras constatações são postas: não há relação entre assistir televisão e as variáveis testadas, com exceção destacada para a já previsível de quem mais assiste TV mais confia nela; associam-se positivamente para quem assiste o JN a satisfação com a democracia, confiança nas Forças Armadas, no presidente da República, nos bombeiros e na televisão como um todo. Porém, um resultado é posto em destaque: o indivíduo que assiste o telejornal por tal número de horas tem, em geral, associações melhores com as mesmas variáveis do que outra pessoa que assista ao mesmo tempo de JN, mas veja mais televisão no total, em outras palavras, o padrão da audiência pode evidenciar que o cidadão chegue em casa, ligue a televisão e só desligue no momento de ir dormir, estando, então, menos atento ao que esteja passando.

Testes estatísticos são feitos e o fenômeno da interferência nas atitudes políticas por parte do noticiário vai ganhando ares de “multifacetado”, ou seja, um plural de explicações pode ser dado. Desenhando estas constatações, estão as associações entre renda e educação, pois como visto nos resultados a audiência do JN não “inverte” a insatisfação doas de maior renda, apenas a suaviza e que na educação, os indivíduos mais escolarizados são os mais insatisfeitos com a democracia, todavia, aqueles que mais assistem ao telejornal e têm mais educação tendem a estar mais e não menos satisfeitos com o regime democrático.

É neste momento do trabalho que se estabelece uma suposição teórica que vê as variáveis socioeconômicas prevalecerem mais fortemente nos indivíduos e perdurarem mais tempo, em contraposição a questões de “momento”, mais frágeis e então mais suscetíveis a influência da mídia.

Na discussão final, então, não é provada a existência de algum indício que possibilite afirmar que a audiência do Jornal Nacional torne os cidadãos menos confiantes ou insatisfeitos com a democracia. Pelo contrário, o observado é a relação positiva entre audiência do telejornal e maior confiança nas instituições e satisfação com a democracia, ressaltando que Mesquita não afirma uma causalidade e até vê uma grande variedade de dimensões, só utiliza o resultado para descartar a hipótese do impacto negativo. Suas explicações para o fenômeno incluem a capacidade de cada indivíduo interpretar o que está recebendo de informação e não somente absorver passivamente o que lhe é apresentado; incluem também a especificidade do cenário de crise política da época que pode revelar que todo o conjunto da população já estava exposto ao ambiente de notícias de corrupção e não em especial os telespectadores do JN; outra interpretação vê que a mídia não estaria fazendo a não ser seu próprio trabalho, que é o de vigiar o poder público, e a população, então, dividiria o conteúdo da pauta e suas considerações políticas; por fim, o autor retoma a questão do caráter temático das reportagens, atuando majoritariamente como um descritor de fatos, “longe de representar uma fonte de preocupação em relação ao desengajamento dos cidadãos”.

Eric Vellone Coló

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