POLITIQUESE

“A PRESENÇA DA TEORIZAÇÃO DA ESCOLA DE CHICAGO OBSERVADA EM ESTUDOS EMPÍRICOS SELECIONADOS”, de Eric Vellone Coló

2 de agosto de 2011
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O texto transcrito abaixo é um relatório de final de curso, e pode ser utilizado em sua íntegra ou em trechos, desde que citados a fonte e o autor.

“A PRESENÇA DA TEORIZAÇÃO DA ESCOLA DE CHICAGO OBSERVADA EM ESTUDOS EMPÍRICOS SELECIONADOS”

ERIC VELLONE COLÓ

SÃO PAULO – SP

2011

INTRODUÇÃO

 

O caráter único e estreante da “Escola de Chicago” se revela principalmente no tocante à pesquisa empírica. Diferenciando-se dos demais departamentos estadunidenses, o Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago logrou ser mais do que um “aglomerado de scholars independentes”, como ressalta Martin Bulmer (1984), e certamente ficará registrado como a primeira escola, academicamente tratada, que instituiu, por um determinado período de tempo, um programa de pesquisa empírica urbana com orientação comum e compartilhada entre seus membros.

As diretrizes que conduziriam todo o processo foram lançadas textualmente desde o ano de 1915 com o “líder” Robert Park e seu trabalho “A Cidade: Sugestões para a Investigação do Comportamento Humano no Meio Urbano”, que, a propósito de seu título, realmente se estrutura a partir de sugestões de temáticas para pesquisa em vários nichos de conhecimento sobre a cidade, tais como migração, organização da cidade em áreas, distribuição populacional entre bairros, segregação, vizinhanças, controle social entre outros. Não se pode olvidar da contribuição também fundamental e de embasamento de Ernest Burgess, que em “O Crescimento da Cidade: Introdução a um Projeto de Pesquisa”, de 1922 e “As Áreas Urbanas”, de 1929, logrou êxito em especificar modelos de análise e conceitos para a pesquisa.

Não bastasse esta “inauguração” metodológica, a grande característica da “Escola” é demarcada pela forte presença de elementos da organização das comunidades naturais para a compreensão da sociedade humana, ou seja, metaforicamente, os conceitos utilizados pela biologia são incorporados ao discurso. A “Ecologia Humana”, como é nomeada, fica então posta como uma abordagem sistêmica para o trabalho de pesquisas empíricas. O desenho desta proposta está evidente no livro didático elaborado através de parceria entre Park e Burgess “Introduction of the Science of Sociology”, de 1921, nele estão presentes termos “emprestados” tais como “competição”, “interação”, “conflito”, “acomodação”, “assimilação” entre outros que são usados nesta empreitada de análise e que neste relatório serão trazidos à baila.

Logo após 1922 e até 1934, quando da aposentadoria de Park, sucedem-se um conjunto de trabalhos alinhados a estas propostas descritas brevemente acima e que firmaram consonância entre procedimentos e conceitos, versando, também em consonância, sobre a sociologia urbana, as relações sociais críticas da grande cidade, da psicologia social e da cultura urbana como um todo. Em suma, foram mais de cinqüenta teses de alunos que beberam desta fonte de “inspiração” analítica e que acabaram por delimitar o que ficou conhecido como a “Escola de Chicago de Sociologia Urbana”.

A intenção e o propósito deste relatório são, então, fazer este esforço de análise comparativa, através de textos selecionados, que vai unir as concepções teóricas e tipológicas aos estudos empíricos realizados nos momentos posteriores a estes textos “fundadores” da disciplina. Valendo-se da análise de resultados de pesquisas, o trabalho vai se enveredar por identificar os conceitos da “ecologia urbana” e suas tratativas dadas especialmente por Park e Burgess, usados então na prática, nestes trabalhos de pesquisa.

No enredo, o relatório se propõe a discutir a temática dos problemas sociais como delinqüência juvenil e gangues, crime organizado, problemas mentais e prostituição, que são elencados em teses publicadas tanto à época da escola quanto posteriormente a ela (entre 1922 e 1950). Para tal empreitada, serão feitos uma breve revisão histórica acerca do surgimento do departamento e suas influências teóricas e filosóficas, descrição sobre quais são os conceitos envolvidos, mapeamento detalhado e individualizado dos textos selecionados e condensação das correlações em uma conclusão interpretativa.

A justificativa da temática esbarra, inclusive, nas próprias justificativas apresentadas por Park e Burgess quanto aos seus estudos e que são reveladores de todo o processo histórico. O primeiro, em uma crítica ao professor Thorndike escrita em “A Cidade, Fenômeno Natural”, afirma que as informações e os dados de nada valeriam se não fossem suficientes para mudar a realidade das comunidades; e o segundo revela, em 1929, que uma vez conhecidos e desvendados os processos, a intenção da disciplina era a de aplicar a pesquisa medidora dos índices de organização local com o intuito de fornecer às instituições cívicas um instrumento de análise de seu próprio trabalho. Em outras palavras, o relatório quer, assim como os autores, colocar todo o aparato teórico proposto em funcionamento no “laboratório social” em que a cidade se transformara.

REVISÃO HISTÓRICA E FILOSÓFICA ACERCA DA FORMAÇÃO DA ESCOLA DE CHICAGO1

 

Fundado por Albion Small, o Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago tem um início em um contexto histórico único: Chicago era uma efervescência urbana em formação, uma metrópole com ares progressistas no meio oeste longe do tradicionalismo das cátedras da costa leste e que concentrava, já em 1900, um grande número de imigrantes estrangeiros, cerca de 50% dos 1.700.000 habitantes e forte presença de negros vindos do sul, cerca de 7% da população em 1930 (BULMER 1984:13), em busca por trabalho e oportunidades. A relevância deste cenário se justifica para desenhar a realidade de problemas sociais enfrentados pela cidade, tais como pobreza, violência, agitação operária e, no geral, delinqüências dos “desencaminhados”, segundo anotou Mário Eufrásio (1995:3). Preocupada com esta realidade de “desordem” e ameaça à estabilidade, a elite econômica de Chicago, com forte influência religiosa protestante, iniciou um trabalho de financiamento cultural através do assistencialismo e de reforma social que muito se valiam de “técnicas missionárias (…) para melhorar o quinhão dos pobres (…) emergindo dessa luta (…) as casas de assistência social local” (SALERNO, 1983).

São estes assistentes sociais os primeiros a conduzir observações sobre as condições sociais e ritmos da vida cotidiana. Com uma convicção de transformação social revestida de filantropia no evangelho social, tais atores passam a articular a prevenção a crimes, a educação sanitária, o progresso moral e o incentivo ao protestantismo como visão religiosa. É neste contexto de atuações que surge, portanto, os sociólogos do departamento: forte influência religiosa, compromisso profissional sério com o melhoramento das condições sociais urbanas e, principalmente e particularmente para o estudo deste trabalho analítico, influência européia dos conceitos evolucionistas, deterministas e positivistas representados pelas figuras de Charles Darwin, Auguste Comte, Jean Baptiste Lamarck e Herbert Spencer.

Esta presença teórica, inclusive, é extensamente comentada por Roscoe Hinkle e Gisela Hinkle (1954:5) quando se verifica, por exemplo, que para Comte “a investigação dos fenômenos sociais se torna científica ao seguir o curso uniforme do desenvolvimento intelectual progressivo do conhecimento”, ou seja, “a realização do progresso social aguarda a formulação de leis sociais universais”. O grande legado desta postura filosófica se encontra no fato de que os métodos científicos de observação, experimento e comparação (método histórico, no caso das ciências sociais) passem a ser encarados como agentes de derivação de leis sociais, uma tal dinâmica gradual e contínua em etapas de ocorrência. A sociedade é tomada como um todo orgânico desenvolvido num ritmo histórico que se sobrepõe (sendo maior, portanto) ao conjunto de indivíduos formadores. Retomando as hierarquias das ciências, a sociologia deveria se modelar segundo a organização de sua ciência antecedente, a biologia. Em um quase sonoro e eloqüente enunciado dos autores Hinkle, a frase “a sociedade é encarada como um organismo, também a estrutura e a mudança sociais são estudadas como a anatomia e a fisiologia” (Ibid, p. 5) permite que, mais à frente, seja possível unir este legado aos textos dos autores de Chicago que serão analisados posteriormente.

Spencer, em uma linhagem positivista, também compartilhava do sentimento de que o método científico deveria ser aplicado aos estudos sociais e que as conclusões sobre estas observações fatalmente conduziriam a sociedade a um cenário de maior “controle do homem sobre a natureza” (Ibid, p. 6). Dentro desta corrente, o que se abstrai é que os indivíduos constituem a sociedade (assemelhando-se a um organismo vivo) e que as leis provêm das leis biológicas de evolução, incluindo neste quesito a luta pela vida e a sobrevivência do mais forte e apto; logo, então, a não adaptação causaria a autodestruição. Neste ponto, diferentemente de Comte, Spencer toma a sociedade como um agregado de várias partições (no caso os indivíduos) livres, de consciência difusa e em busca de benesses individuais. Está arrolado também na postura de Spencer o ideal de heranças geracionais hereditárias adquiridas com o passar da pressão por sobrevivência a qual os indivíduos estariam subjugados, em outras palavras, o melhoramento intelectual e físico da espécie ocorreria com a somatória dos vários melhoramentos individuais.

Em suma, o que a literatura, através dos diversos autores que tratam a formação teórica dos sociólogos norte-americanos tais como Lewis Coser (1980), Roger Salerno (1983), Martin Bulmer (1984) e Roscoe Hinkle e Gisela Hinkle (1954), no geral, tem a intenção de registrar é a enorme carga de influência que os ideais evolucionistas de Comte e Spencer tiveram na formulação dos traços de uma disciplina que posteriormente desenvolve estudos urbanos. Certamente não se pode olvidar de registrar que o puro determinismo biológico e a postura do “laissez-faire” foram rejeitados, e o conceito aproveitado foi o de que o progresso poderia sofrer uma “aceleração através de intervenção racional” (Ibid, p. 7), no sentido de que o conhecimento acerca dos princípios de mudança social auxiliaria o movimento de melhoria de condições de vida da humanidade.

 

A “ECOLOGIA HUMANA” E SEUS CONCEITOS: REVISITANDO AS OBRAS DE PARK E BURGESS1

 

A cidade, para Robert Park, é concebida como um “estado de espírito”, ou seja, um “corpo” envolvido em processos vitais cheios de utilidades (PARK, 1915:29). A visão da cidade como um “super organismo”, citando Spencer em “A cidade, fenômeno natural” (1939), para retratar seus elementos componentes, instituições e pessoas ligadas que todo o conjunto tende a assumir as características de um organismo. Para o autor, então, a cidade não é um objeto físico dado, e sim resultado de uma natureza humana que organiza o agrupamento das pessoas e das instituições. Uma tendência da metrópole seria a de dissecar e desvendar publicamente os traços de comportamento humano, justificando adotar a cidade como “laboratório”, onde se estuda a natureza humana e seus processos sociais.

Criticando a idéia de que a cidade é geralmente vista como um ente sem vida, Park responsabiliza, e partes, a artificialidade do quarteirão em formato de tabuleiro de xadrez. De fato, para Park, os moldes se dão pelo enraizamento profundo dos hábitos e costumes, numa modificação mútua da organização moral e física, revelando ser a estrutura da cidade nada mais do que a expressão da natureza humana. Nesta argumentação, fica estabelecido que a cidade em si mesma não determina o valor e uso da terra, e sim o “empreendimento privado” (PARK, 1915:33). São estes gostos e interesses pessoais e econômicos que geram a tendência a segregar a cidade, classificando suas populações e áreas, tanto que o comércio e a indústria buscam “localizações vantajosas” e os mais pobres, excluídos, acabam por ocupar terrenos onde o valor da terra é menor.

Com a segregação, ou seja, separação, estas delimitações geográficas se convertem em unidades locais de vizinhanças, que compartilham sentimentos, tradições e histórias, tudo sem uma organização formalizada. O ponto já abordado por Park é o do isolamento de áreas segregadas (“cidades dentro de cidades”) (PARK, 1915:38) que acabam por intensificar preconceitos sociais e raciais e fortificar laços dos habitantes desta vizinhança. Inclusive, isolamento e mobilidade estão na mesma mesa para o autor, pois o morador é observado como não fixo e a busca por oportunidades de angariar dinheiro faz com que o constante deslocamento entre áreas ocupe importante papel neste reajuste do indivíduo.

Em perspectiva econômica, Park concebe a cidade como “praça do comércio”; e as conseqüências desta perspectiva são tratadas na expansão da divisão do trabalho (classes vocacionais estabelecidas de acordo com a seleção de tarefas específicas para indivíduos mais adequados para seu desempenho), a racionalização dos valores (interesses econômicos em substituição aos sentimentos) e a impessoalidade das relações (que foram gradualmente sendo trocadas de “diretas, face a face, primárias” para “indiretas e impessoais”, ressaltando o declínio de influência da família e da igreja).

O cenário delineado seria um “laboratório para a investigação do comportamento coletivo” (PARK, 1915:49). O controle social poderia ser abstraído desta realidade de sentimento público das interações, uma vez que “os indivíduos reagem não apenas ao que cada indivíduo efetivamente faz, mas ao que ele pretende, deseja, ou espera fazer” (PARK, 1915:58). A influência do professor alemão Georg Simmel é nítida, quando tomado do ponto de vista analítico de “A metrópole e a vida espiritual”. No quesito temperamento, o que Park faz é explicitar as diversas possibilidades que a grande cidade propõe ao cidadão através de estímulos sobre o reflexo e que com o passar das experiências, cada indivíduo encontraria “um lugar entre as variadas manifestações da vida citadina (…) no qual para o bem ou para o mal suas disposições e talentos dão frutos” (PARK, 1915:68-69). Fica estabelecido, desta forma, o conceito de “região moral”, que seria a proximidade, e posterior segregação, destes grupos de tipos de temperamento na criação de uma espécie de código cultural.

A ciência que lida com estas forças e vetores é denominada de Ecologia Humana, a qual não foi tão detalhada em “A Cidade”, mas sim em seu livro didático elaborado em parceria com Burgess “Introduction of the Science of Sociology”, de 1921. Esta comunidade não existe sem processos de mudanças; e no movimento de mudança a competição surge como um agente de equilíbrio econômico, seja na distribuição territorial seja na divisão do trabalho (já descritas aqui anteriormente na breve resenha de “A Cidade”); a competição toma lugar na “luta pela existência” (PARK; BURGESS, 1921:511), através de mecanismos de regulação e preservação, indicando aspectos de mobilidade, liberdades e mudanças pragmáticas ocorridas contínua e inconscientemente no interior da comunidade, inclusive não havendo necessidade de contato entre os indivíduos (caráter impessoal). Fica explícito pelos autores que a noção de conflito tem outro viés; o de disputa com contato social indispensável, o caráter é mais pessoal e envolve paixão, atenção e esforço, fixando o local do indivíduo na sociedade (PARK; BURGESS, 1921:574).

Ainda no âmbito de conceitos biológicos adaptados e na discussão sobre competições, o de “sucessão” é aplicado por Park na investigação dos câmbios nos usos de zoneamentos estratégicos das áreas da cidade, uma vez que é identificado que, com a progressiva sucessão de estágios nas condições de vida, o ambiente em equilíbrio se enfraquece e um novo rearranjo de competição ocorre até o novo patamar de equilíbrio (o raciocínio será verificado similarmente mais à frente com a análise das áreas urbanas que Burgess propõe e também no texto selecionado para comparação “Descrições Resumidas de algumas Sub-áreas Residenciais da Cidade”, de James Quinn). O processo biológico associado é o de expansão. A frase “A metrópole (…) seleciona (…) os indivíduos melhor adaptados para viver numa região particular (…)”, do texto “The City as a Social Laboratory”, delimita bem o conceito que vem na seqüência da sucessão, proporcionando noções de peneiramento e classificação, em outras palavras, segregação e dominância, onde os habitantes são demarcados por “tipos” e as áreas dominantes (com maior valor) terão usos distintos umas das outras. Mais tarde, em “Ecologia Humana”, Park usaria o termo subordinação de forças.

Quando tratam dos ajustes que os indivíduos inseridos fazem para se adequar à vida, os autores retomam a adaptação de Darwin, que prega modificações biológicas adquiridas hereditariamente e que influem diretamente na seleção natural dos mais aptos para sobreviver e no descarte dos menos aptos. Trazendo sua discussão para o social, o termo utilizado é o da acomodação, que prevê também uma transmissão de valores entre as gerações, porém não de forma biológica e sim social, através da educação, tradições e da socialização (PARK; BURGESS, 1921:664-665). É nesta mesma linha de raciocínio que se encontra a assimilação, que é o processo gradual e moderado de aquisição, por parte dos imigrantes, ao pensamento, sentimento e ação parecidos com os locais. Ela seria o “perfeito produto final da interação” (PARK; BURGESS, 1921:736).

As características trabalhadas por Burgess arroladas na breve revisão de seu texto junto a Park já exposto aqui são complementadas por, no mínimo, dois outros textos fundamentais para compreender a teorização sobre a sociologia urbana de Chicago. Elaborado como um projeto de pesquisa com vistas a angariar financiamento para o departamento, “O Crescimento da Cidade: Introdução a um Projeto de Pesquisa”, de 1922, é essencialmente teórico sobre expansão e segregação espacial na cidade. Já “As Áreas Urbanas”, de 1929, continua a debater essa temática, contudo a aplicação a Chicago é mais visível.

A novidade que Burgess quer trazer é o estudo da expansão da cidade (e da zona metropolitana) não só como crescimento físico de vias e serviços, e sim como um processo. Sua tese traz a teoria dos círculos concêntricos de expansão, que, em suma, divide a cidade idealmente em círculos a partir de seu centro geográfico, em geral associado ao distrito de comércio central (C.B.D.: Central Business District), e aponta a tendência de expansão da cidade de modo radial. Em “As Áreas Urbanas”, o autor reafirma este caráter de crescimento radial e inclui as variações da topografia do relevo e o plano de vias e transportes como fatores que afetam o processo de expansão e mobilidade dentro da cidade. A explanação se complementará em “‘Sucessão’ em Chicago”, de Paul Cressey, a ser analisado na argumentação deste relatório.

Delimitadas as zonas de transição, de residências dos trabalhadores, de residências de alta classe e dos “commuters”, Burgess afirma, descrevendo a expansão “os atuais limites da área de deterioração eram, não há muitos anos, aqueles (…) que continham as “melhores famílias” (BURGESS, 1922:358). É quase desnecessário apontar que tal procedimento segue à risca os processos de competição e sucessão que Robert Park já descrevera. Aliás, em adição, Burgess faz uma analogia entre crescimento urbano e metabolismo do corpo humano.

Nestas etapas de crescimento, o item assimilação (nos termos já descritos aqui) é novamente posto à baila para discutir se a taxa de crescimento da cidade que recebe tantos imigrantes é “normal” ou se ela causa “distúrbios”, e, na argumentação, o autor chama a desorganização de normal, pois ela induz reorganização com reajustes eficientes, ou seja, não é “patológica”, é sim benéfica, não ignorando o fato de que essa desorganização da assimilação causa um “conflito mental e (…) senso de perda pessoal” (BURGESS, 1922:360). Nesta mesma seqüência, é descrito o processo de distribuição peneirada dos indivíduos, realocando-os em diferentes agrupamentos econômicos e culturais “naturais” (como dito por Park, “áreas naturais”), junto à diferenciação pela divisão do trabalho.

 

“SUCESSÃO” EM CHICAGO: A MOVIMENTAÇÃO PELA CIDADE E O PROCESSO DE ASSIMILAÇÃO

 

Observando o rápido crescimento da cidade de Chicago durante as três primeiras décadas do século XX, Paul Cressey vai acompanhar, em seu trabalho de 1938, a distribuição da população pela cidade. Valendo-se de dados dos recenseamentos, o autor descreve a trajetória das mudanças ocorridas dentro das porções de território da metrópole.

A influência da metodologia de Burgess se verifica logo no início de seu texto, quando a cidade é dividida e retratada nos “círculos” radiais propostos em “As Áreas Urbanas” (figura 1). A constatação primeira, inclusive, revela que as áreas próximas ao centro da cidade, a denominada “Zona de Transição”, registraram queda da quantidade de população, enquanto as mais distantes ao centro aumentaram sua população, inclusive adentrando para os subúrbios além dos limites geográficos da cidade (CRESSEY, 1938:451). A diversidade de população, como exemplificada na figura dos imigrantes judeus, negros, suecos e irlandeses, vai sustentando suas explicações que se enveredam entre as distinções culturais e sociais dos diferentes estratos dos cidadãos. O próprio autor revela sua proposta: “A distribuição destes vários grupos reflete um processo definido de sucessão” (CRESSEY, 1938:452).

Nesta altura de argumentação, o laço com Park e Burgess está atado e o processo de “assimilação” dos imigrantes começa a ser descrito. As etapas são postas com um início de imigrantes mais agregados em torno de sua cultura original e concentrados em áreas de aluguéis mais baratos (geralmente áreas industriais próximas à zona de transição); e uma etapa posterior quando os imigrantes “melhoram suas condições de vida e (…) se move na direção (…) de um distrito residencial mais desejado” (CRESSEY, 1938:452), quando a solidariedade interna ao grupo diminui e os padrões culturais norte-americanos estão mais absorvidos. Em “Introduction of the Science of Sociology”, como visto na primeira parte deste relatório, Park e Burgess descrevem a assimilação exatamente como um processo de modificação gradual das atitudes até que a interação, tida como “perfeito produto final” da assimilação, consagra o processo todo. Comprovação? “A maior parte do grupo deixou de viver em comunidades germânicas, espalhando-se pelas áreas mais ou menos cosmopolitas. Esta ampla dispersão é um índice do declínio de unidade social entre os alemães e de sua absorção gradual na vida geral da cidade” (CRESSEY, 1938:457).

Continuando sua exposição, Cressey ainda ressalta que este padrão de redistribuição populacional, tanto entre grupos imigrantes quanto entre próprios grupos norte-americanos, ocorre dentro de um cenário cíclico de “invasão, conflito, recessão e reorganização” (CRESSEY, 1938:453). Desta forma, já numa clara perspectiva de competição, inclusive, pois, o autor trata de “velocidade” de movimentação de acordo com cada grupo, a argumentação recorre novamente ao ciclo proposto por Park e Burgess quando do “equilibro instável das comunidades, tal que qualquer mudança no meio ambiente pode destruí-las” (PARK; BURGESS, 1921:511). A idéia é um constante conflito que mede as forças dos grupos na disputa por melhores áreas dentro do território e quais são as características que compõem vantagem. Em Chicago, empiricamente comprovando a teorização, “foi o contingente norte-americano que, em virtude de sua superioridade em riqueza e prestígio, manteve a dianteira no movimento da população da cidade em direção à periferia” (CRESSEY, 1938:456).

 

SUB-ÁREAS RESIDENCIAIS: SEGREGAÇÃO HABITACIONAL

 

Seguindo os estudos urbanos com relação à estrutura organizacional da população de Chicago, James Quinn trata em “Descrições Resumidas de algumas Sub-áreas Residenciais da Cidade” de uma temática (já analisada na primeira parte do relatório) proposta inicialmente por Park como “áreas naturais”. Em suma, o texto de Quinn descreve analiticamente quatro áreas residenciais e seus habitantes, numa postura de segregação, já prevista por Park e Burgess.

As “áreas dos homens sem lar” são as primeiras a serem descritas, até porque elas, mesmo espacialmente separadas em três direções radias, são as mais próximas ao distrito comercial central. Estes homens sem lar têm características de estar em constantes viagens, quase sempre sozinhos (alta individualidade), têm poucos vínculos, vocábulos próprios (criados a partir de constante interação entre os membros da área) e pouco tratam de seus passados. Em comum, vivem com pouco dinheiro e, portanto, são precárias as condições de alimentação e habitação. São classificados pelo autor entre os hoboes migratórios (ou ainda trabalhadores que permaneciam apenas por dias na metrópole); os homeguards (em geral, eram os pobres mais velhos e que mal saíam da cidade); e o “tipo radical ‘intelectual’” (QUINN, 1950:1).

Na continuidade da exposição, Quinn passa às áreas dos quartos de pensão, que caracteriza como sendo, no passado, um distrito de residências de bom padrão, mas com o tempo, sofreu a transformação comercial (novamente se flagra a concepção de Burgess de expansão da cidade como um metabolismo de organização – conflito – competição – reorganização) e expulsou os habitantes para outras regiões. Os valores, então, aumentaram de tal forma a não propiciar a existência de casa de uma só família e o que se observou foi o grassar de quartos baratos de pensão, que passaram a ser ocupados por jovens trabalhadores de escritórios cujos salários não permitiam altos gastos com habitação e recreação social. Um importante ponto abordado nesta seqüencia de argumentação é a falta de contatos pessoais entre estes habitantes, devido principalmente à falta de convivência em clubes particulares caros e falta de “confiança” entre os moradores destas residências coletivas vistas como “temporárias” (QUINN, 1950:3).

Quando trata da “sociedade elegante”, Quinn descreve a exclusiva área da Gold Coast, uma sub-área habitada pelos líderes da sociedade, cercada de hotéis e clubes luxuosos, marcando um cenário de agitação social, entretanto a impessoalidade causada pela competição pelo uso intensivo do espaço geográfico é notada pelo autor. O quesito competição aqui não se restringe ao espaço físico, mas também ao caráter do status social, ou seja, a competição para estar entre a “elite”, entre os “registrados”, era forte e envolvia constante comportamento de “alerta” e de “reciprocidade de convites”, para permanecer com sua “reputação social” (QUINN, 1950:4-5)

Para estudar as áreas dos negros, Quinn retoma argumentação de Frazier (1937) para, usando o padrão espacial de análise dos círculos concêntricos, delimitar o “centro da dominância ecológica”, ou seja, a análise da segregação cravou o nome “Black Belt” (cinturão negro) para descrever a porção do território ocupado pelos negros e chamar de “cidade dentro da cidade”, concentrado principalmente na Zona I. É tratado o fato de que o Loop central de Chicago é dominante para a área dos negros, não havendo, como em Nova Iorque, um sub-centro ecológico (QUINN, 1950:5).

A GANG: OS AGRUPAMENTOS URBANOS SOB A ÓTICA DA SEGREGAÇÃO

 

Frederic Thrasher faz, em sua tese “A Gang: Um Estudo de 1.313 Gangs em Chicago”, um retrato social que congrega no mínimo quatro concepções teóricas clássicas da sociologia urbana ecologicamente tratada: assimilações, cooperações, conflitos e segregação. A análise do texto vai de encontro exatamente com a intenção deste trabalho de observar as concepções teóricas por detrás de pesquisas empíricas.

Thrasher vê a gang basicamente como um grupo de conflito, ou seja, um agrupamento humano bem organizado internamente com lideranças, mecanismos de controle e códigos que adquire solidariedade para confrontar hostilidades externas. Em geral, sua localização já retrata bem a segregação que fomenta sua existência, pois foi observado que a concentração dos agrupamentos se dá na zona de transição que está às margens do CBD (o Loop); este é o “cinturão de pobreza” das “Áreas Urbanas” de Burgess. A novidade em Thrasher é a tratativa da gang como um sintoma direto da fronteira intramural criada com o progresso econômico e a desorganização da comunidade. (THRASHER, 1927).

Estes grupos estão associados à busca por novas e diferentes experiências, sejam através de jogos, esportes, danças e apostas; sejam através ilicitudes como vícios, crime organizado e corrupção. A gang, enfim, é vista como um agrupamento majoritariamente masculino, no geral formado por filhos de imigrantes estrangeiros “superficialmente americanos” pelo processo de assimilação, que se aglutina num movimento de cooperação (“solidariedade, […], consciência de grupo”) entre as nacionalidades e raças (quando de vizinhanças homogêneas) para delimitar seus territórios de influência (THRASHER, 1927). Os conflitos entre as gangs, portanto, não são raras.

No viés da problemática, o autor vê as gangs como agentes do crime organizado (“seus membros […] comumente constituindo um resíduo de criminosos, resultado de um processo de seleção natural” [ibid.]), corrupção política, desordem social (revoltas) e desmoralização dos membros (falta às aulas, fuga do lar, delinqüência, brutalidade).

Para a solução do problema é sugerido tanto uma reorganização social, através de diminuição da pobreza, estruturação de instituições como famílias, escolas, igrejas e recreações organizadas como também pela transformação da gang em objeto de controle, direcionando as energias e absorvendo o membro a um esquema mais amplo (ibid).

 

DELINQUÊNCIA JUVENIL: “CONTRACULTURA” NA SEGREGAÇÃO

 

Clifford Shaw, considerado o pai da moderna pesquisa científica da delinqüência juvenil, publica, em 1929, no livro “Personality and the Social Group”, seu texto “Delinquência Juvenil e Desorganização Social” para tratar de um problema social crescente em Chicago: os casos de violência entre os jovens. Sua pesquisa objetiva logo aponta a influência da comunidade como fator primordial de explicação, ou seja, “o espírito moral da comunidade reflete-se facilmente na conduta de seus filhos”, citando o estudo anterior do Dr. William Healy (SHAW, 1929:382). De fato, a proposta é demonstrar que a criança, no processo de interação com determinadas experiências, pode adquirir um “ajustamento” que condiz com sua situação social e cultural.

Valendo-se posteriormente de seus estudos (o “Relatório Wickersham”), Burgess e Bogue retomam o assunto em uma abordagem mais interpretativa do que descritiva como foi a de Shaw. As conclusões e pressupostos, todavia, permaneceram as mesmas e conduziram a verificações empíricas importantes, como, por exemplo, a localização geográfica destes delinquentes, a influência da comunidade e a personalidade dos transgressores.

Assim como verificado no mapa produzido por Shaw, a taxa de delinqüência (ferramenta estatística que elenca os casos de delinqüência reportada à polícia em uma unidade de milha quadrada) é bastante alta e concentrada no “Loop” central e contíguas áreas centrais nos distritos industriais e comerciais; esta taxa gradativamente cai ao longo dos eixos radiais da cidade que vão em direção à periferia. Para demonstração, a tabela elaborada pelo autor mostra uma taxa de delinquência 37 (trinta e sete) na primeira milha ao redor do centro e uma taxa 1 (um) quando analisada a nona milha a partir do centro. A conclusão primeira, portanto, recai sobre a localização dos delinquentes delimitados às áreas de grande deterioração física, onde há pobreza, alta criminalidade entre adultos, alta mobilidade residencial e desorganização social. Logo em seguida, são apontadas as áreas circundantes, repletas de imigrantes e seus “padrões culturais confusos”. Fica evidente que a proposta de explicação toma o processo de assimilação pelo qual os imigrantes estão passando como condutor de uma “fusão de culturas divergentes” e “desorganização pessoal” (BURGESS & BOGUE, 1964:3).

Como traço de conduta, o observado traz novamente a questão das gangs como fator de influência auxiliar no comportamento criminoso dos rapazes envolvidos em crimes e delitos (90% dos casos de delinquência foram praticados com um ou mais companheiro). Ocorre como uma transmissão de valores, um “rito de passagem” (expressão minha) que faz com que os padrões de conduta sejam assimilados pelos garotos mais jovens e assim eles passem a integrar totalmente determinada gang, conforme já se verificou no estudo aqui resenhado de Frederic Thrasher.

Em suma, ecologicamente tratada, a delinquência se põe para Shaw como uma “subcultura” e “contracultura” que tem terreno fértil onde há vizinhanças problemáticas, associações sob “códigos de delinquência” em grupos e “lares desfeitos”, não se tratando de um determinismo por “sangue ruim” como relembram Burgess e Bogue (1964:7-9).

 

CRIME ORGANIZADO: PESQUISA CIENTÍFICA PARA O TRATAMENTO DA CRIMINALIDADE

 

O aluno romeno John Landesco se envereda por compreender, sociologicamente e dentro das perspectivas científicas do departamento, a origem e o crescimento do crime organizado, através da figura do gangster, em Chicago. Seu texto é bastante repleto de dados, notícias de jornais, relatos do cotidiano e historicidade, com um tom claramente investigativo. Por crime organizado, são tomados a exploração da prostituição, os jogos de azar, a fabricação e distribuição de bebida alcoólica, uso de violência, extorsões e corrupções políticas e policiais.

Basicamente, sua postura é de ver o gangster como um indivíduo que foi criado em vizinhanças onde a presença das gangs é mais enraizada. Em uma perspectiva de assimilação, assim como denotado por Shaw e seus trabalhos sobre a origem da delinquência, Landesco (1929:13) também associa a infância cercada de atividade criminosa, brutalidade, delinquência sexual e ódio aos policiais como campo fértil para o crescimento da criança no ambiente de gangs.

Novamente abordado, o viés da imigração reaparece na descrição desde gangster filho de imigrantes e que enfrenta muita dificuldade financeira. O garoto, a esta altura, faz um comparativo entre seu cinzento pai e os “bem vestidos” homens que freqüentam as casas de apostas e a segunda opção de vida se apresenta como mais “sedutora”. Os riscos de se viver num submundo são calculados e é neste momento que os “subornadores de policiais” equilibram as contas. Portanto, o garoto de gang que se torna um gangster seria um “produto natural de seu meio-ambiente” (LANDESCO, 1929:15), no caso cortiços e slums.

Retomando a questão da disposição geográfica, o autor afirma, nesta mesma linha de raciocínio, que os slums foram formados no processo histórico de crescimento estrutural da cidade, assim que as famílias mais bem sucedidas financeiramente se mudaram para distritos residenciais afastados do centro e “deixaram para trás o estrangeiro trabalhador e mal sucedido que não é aceito como modelo (…) no processo de americanização” (LANDESCO, 1929:15). Pela perspectiva geral que este relatório se comprometeu desde o início, é quase desnecessário ressaltar que nesta frase os conceitos de competição e conflito foram levados a um uso dos mais extremados durante os trabalhos aqui analisados. Landesco afirma que o “gangster viveu sua vida numa região de violação da lei, de fraudes, de subornos e de ‘arranjos’”. A frase forte que finaliza este parágrafo do resumo de seus trabalhos é “o bom cidadão e o gangster nunca foram capazes de se entender (…) eles foram criados em mundos diferentes”. (LANDESCO, 1929:16)

Suas conclusões criticam o modo como a sociedade encara o problema da criminalidade, atacando-a de forma tão impulsiva e passional que geralmente não têm eficácia; em outras palavras, o que Landesco quer é propor um combate ao crime que seja baseado em estudos analíticos e “procedimentos científicos”, assim como o fez durante o trabalho todo. Para ele, embora a origem dos gangsters seja sua própria vizinhança conturbada, após tornarem-se chefes do crime organizado suas mecânicas de operação se baseiam em “tirar vantagens da complexidade do governo”, ou seja, a proposta é assegurar cooperação entre as autoridades e que elas estejam coordenadas sob a égide da racionalidade em cada caso e não acabem por amalgamar todo o conjunto de crimes.

PERTUBAÇÕES MENTAIS EM ÁREAS URBANAS: A SELEÇÃO NATURAL SE APLICA NOVAMENTE

 

No capítulo “Perturbações Mentais em Áreas Urbanas”, do livro “Mental Disorders in Urban Areas”, de Robert Faris e Warren Dunham, toda a estrutura clássica das áreas naturais da cidade são refeitas, porém o viés final vai conduzir a uma análise empírica sobre a “demência”, ou seja, os problemas mentais e sua localização em Chicago.

Durante diversas páginas, os autores percorrem os pressupostos de Burgess e Park, elencando novamente a argumentação das zonas concêntricas, passando pelo Loop da zona I, a zona II de transição, a zona III de moradia de operários e a zona IV e V de prédios de apartamentos e residências da classe média superior. O mais destacado desta breve revisão são os conceitos ecológicos da competição e da seleção natural bem evidenciados, como nas passagens: “os característicos das populações nestas zonas parecem ser produzidos pela natureza da vida dentro das zonas e não o contrário. Isto se evidencia pelo extraordinário de todas as zonas conservarem (…) enquanto diferentes populações passam através delas”; e ainda “dentro deste sistema de zonas, há ainda maior peneiramento das instituições sociais e econômicas e de populações. Na competição em torno de valores de terreno no centro da cidade, cada tipo de negócio encontra o lugar em que pode sobreviver” (FARIS & DUNHAM, 1939:408).

Após percorrer estudos e dados que comprovam a constância nos indicadores sociais por entre as zonas, os autores se questionam se esta mesma configuração se apresentaria quanto às perturbações mentais, ou seja, o desenho das populações que sofrem de distúrbios psicológicos também se adequaria aos mapas já produzidos pela disciplina?

Para responder ao questionamento, os autores produzem uma série de mapas que leva em consideração os distritos de comunidades de Chicago e o número de habitantes que estão em tratamento em instituições públicas e particulares. De forma constante, todos os mapas mostram as taxas mais elevadas concentradas ao centro da cidade (zona I) e uma progressão negativa à medida que se dirige à periferia. A “exposição estabelece definidamente de que a sanidade, como outros problemas sociais, se adapta à estrutura ecológica da cidade” (FARIS & DUNHAM, 1939:435); e o mais notável é que novamente os autores apregoam tal constatação como uma “função” do crescimento, ou seja, os processos sociais envolvidos nos conflitos e na competição dos mais aptos produziriam o cenário.

 

PROSTITUIÇÃO ORGANIZADA: O PRAZER EM COMPETIÇÃO

 

O pequeno capítulo publicado no The American Journal of Sociology “Distribuição pela Cidade da Prostituição Organizada”, de Walter Reckless, vem de encontro com a linha de argumentação já observada em todas as páginas anteriores. O pesquisador, fazendo uso de suas técnicas de observação, vai analisar o problema da prostituição pela metrópole e fazer inferências a respeito de sua organização social e espacial.

Para Reckless, “as áreas de prostituição organizada da cidade representam uma segregação natural de indivíduos” (1926:480), onde a prostituição fica censurada e, então, isolada geograficamente. Tal isolamento conduziu a prostituição organizada (aquela que possui uma estrutura de funcionamento e não ocorre no âmbito íntimo por uma decisão do indivíduo de prostituir-se) a firmar-se principalmente em áreas degradadas do centro e em áreas à beira da cidade, não obstante, o próprio autor afirma que em todas as zonas da cidade foram localizados áreas de prostituição, e que “a prostituição organizada se adapta ao tipo de vizinhança invadida” (RECKLESS, 1926:483). Vale ressaltar que o termo “invadir” se remete à influência do conflito na comunidade humana abordada ecologicamente. Ecologicamente posta também está a competição que, durante a competição financeira, faz com que os bordéis não consigam sobreviver territorialmente face aos caros alugueis pagos pelos escritórios e comércios na região central.

A área que, então, Reckless nomeia de habitat (mais ecológico impossível) do bordel é a área de deterioração que circunda o centro comercial, ou seja, o slum, penetrando nas colônias raciais e de imigrantes (uma vez que são tomadas como áreas de desorganização social). As explicações para tal localização recaem sobre a facilidade de acesso, o anonimato que o centro carrega (aqui o relatório não pode deixar de notar a influência do texto de Simmel “A metrópole e a vida espiritual”, quando se lida com o caráter impessoal da grande cidade) e a ausência de residências que possam vir a repreender os atos ali cometidos. Mais distante do centro, já nas áreas de apartamentos e residências, a prostituição organizada se adaptou a um cenário mais elegante e mais individualizado: os “flats imorais” permitem uma certa discrição para os membros da alta sociedade dirigirem-se com seus carros para freqüentar os apartamentos localizados nos grandes boulevards.

Em suma, a pesquisa empírica de Reckless confirma a correlação de que as casas de prostituição organizada procuram estabelecer-se em áreas de grande densidade populacional e grande mobilidade, em áreas degradadas com valor de aluguel baixo, porém valores altos de terrenos que interessam ao comércio. A distribuição, portanto, seguiria “forças determinadas pela organização econômica, política e cultural da comunidade, assim como pela combinação de forças inerentes à natureza humana. (…) a segregação da prostituição é antes (…) resultado de um processo natural de distribuição” (RECKLESS, 1926:493-494).

 

CONCLUSÃO

 

Assim como exposto desde a introdução, o objetivo desde relatório acadêmico foi o de percorrer a presença e o papel dos elementos teóricos propostos pela Escola de Chicago e seus líderes Robert Park e Ernest Burgess nos trabalhos de pesquisa que se sucederam ao período inicial das formulações, entre 1915 e 1922.

Como verificado desde sua fundação, o departamento de sociologia apresentou características únicas e até mesmo inéditas. O conceito de ecologia humana no estudo da sociologia urbana veio somente consagrar uma linha toda de pesquisas empíricas que, pela primeira vez, reuniu cientistas sociais em torno de um projeto com sistemáticas metodológicas, concepções e teorizações congruentes.

Este cenário acadêmico proporcionou solo fértil para a abordagem da cidade como laboratório social, em outras palavras, os textos todos mencionados na análise comparativa feita no decorrer do relatório comprovam que as formulações iniciais tornam-se, sim, um singular rumo de pesquisas (inclusive, a título de registro, mais de cinqüenta outras teses foram publicadas no período) e que continuadamente reaparecem em discussões sociológicas e urbanísticas até contemporaneamente, através de suas expressões e conceitos.

Os trabalhos de Cressey, Quinn, Thrasher, Shaw, Landesco, Faris, Dunham e Reckless retomam, invariavelmente e constantemente, a teorização de Burgess e seus círculos concêntricos (a cidade divida a parir de seu círculo central – “loop” – e as áreas de transição, residenciais, industriais) e a teorização de Park sobre a seleção natural através de competições. As problemáticas das gangs, da delinquência juvenil que conduz ao crime organizado, das perturbações mentais e a prostituição organizada têm, todas, tendências de confirmar e reconfirmar um distrito central e áreas de imigrantes adjacentes repletos de indivíduos “não aptos” às mudanças da expansão da cidade e que acabaram por ser “deixados para trás”, como afirma Landesco; ainda, confirmam e reconfirmam a gradual melhora nos índices sociais quando se toma em consideração os eixos radiais em direção à periferia repleta de distritos residenciais das “melhores famílias”.

Park, muito esclarecido de sua função, afirmou que todos os dados “da nada serviriam” caso não pudessem mudar a realidade local das comunidades (PARK, 1939: 148); e assim também o fez Burgess, quando expôs a intenção de usar suas estatísticas para prover os organismos cívicos de “critérios objetivos” para mensurar a eficiência do trabalho público e promover uma majoração na efetividade do mesmo (BURGESS, 1929:13). O relatório julga que esta é a condução que todos estes autores tratados impuseram para seus trabalhos, ou seja, valeram-se da teorização que lograram na universidade para ir a campo e compreender a problemática social e propor alternativas e explicações valorosas com vistas às soluções, não só aos seus respectivos tempos históricos, como também para todo o desenvolver do conhecimento sociológico, pois, afinal, como ressalta Roderick McKenzie no prefácio de seu “A Vizinhança”, em 1923, “as descobertas expostas neste estudo podem ter agora uma significação apenas histórica. Todavia, o método empregado pode possuir elementos de valor mais permanente”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NOTA

 

1 – Os trechos assinalados são adaptações e transcrições do textoRobert Park, Ernest Burgess e Roderick McKenzie: Suas Contribuições para a Constituição de uma Teorização que Originou a Sociologia Urbana da Escola de Chicago”, também de Eric Vellone Coló.

 

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