POLITIQUESE

Resenha de “Miséria do Historicismo”, de Karl Popper.

27 de fevereiro de 2012
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O texto aqui publicado pode ser reproduzido em trechos ou esua m íntegra, desde que citados o autor e a fonte.

Resenha de “Miséria do Historicismo”, de Karl Popper.

Autor: Eric Vellone Coló

 

Quando nos deparamos com o texto da obra Miséria do Historicismo, de Karl Popper, nos deparamos com uma crítica ácida e direta do método historicista. De acordo com a estrutura da argumentação, Popper vai percorrer criticamente as características argumentativas cientificistas e culturalistas para “tentar mostrar que o historicismo é método pobre que não produz fruto algum”, como o próprio autor expõe no prefácio do texto.

Publicada em 1957, a obra do autor austríaco naturalizado britânico fomenta seu trabalho junto à Metodologia, pois se coloca como um texto de investigações e críticas metodológicas. Metodologia inclusive bem delineada, pois, analisando o trabalho de Popper, sua postura conduz a uma perspectiva onde a teoria científica ganha aspectos conjecturais e provisórios, em outras palavras, não é válido, para o autor, afirmar a verdade de uma determinada teoria apenas tomando por base resultados verificados a partir de previsões desta própria teoria. A proposta é confrontar a teoria com as observações do mundo empírico e caso haja alguma prova falsa da teoria ela deve então ser dispensada.

De fato, em Miséria do Historicismo, Popper lida com o método historicista sob a ótica de uma ciência histórica que prevê o conhecimento científico partindo do desenrolar da História, ou como melhor posto pelas nas palavras do autor afirmando ser uma abordagem de “predição histórica”. O historicismo concebe, portanto, a possibilidade de se traçar sistemas, regras, leis, tendências e padrões ao se abordar, no transcorrer do curso da História, as Ciências Sociais em especial e quase que com exclusividade. O método afirma que em circunstâncias históricas semelhantes, eventos semelhantes ocorrerão.

A princípio, não haverá, neste trabalho, maiores aprofundamentos a respeito da descrição sobre o método, e sim, um comportamento de acompanhar a crítica de Popper de tal corrente para as teorias científicas em geral. Como é necessário relatar, a própria engenharia do texto já propõe este formato, com duas partes iniciais dedicadas à apresentação descritiva do historicismo e duas partes finais onde o autor expõe suas críticas ao modelo. Ainda pontuando estas descrições, o autor classifica as escolas em naturalísticas e anti-naturalísticas, respectivamente “positivas” à aplicação dos

métodos da Física às Ciências, e “negativas”, quando da oposição à utilização do método.

De forma bem sucinta, Popper trabalha com enunciados gerais para condensar sua crítica ao historicismo, destacando o papel fundamental que o “crescer do conhecimento humano” tem na influência sobre o curso da história humana e de quão imprevisível é a expansão deste conhecimento, fato que inviabilizaria a previsão dos rumos da história humana e dos eventos do desenvolvimento histórico futuro. O cerne da questão está na complexidade dos processos e transformações que permeiam a relação entre indivíduos, instituições e ideologias. Deste ponto de vista crítico, Popper quer ressaltar que os eventos sociais e históricos são influenciados de forma mútua tanto pelo momento histórico linearmente no passado e no presente; portanto a explicação dos eventos via normatização do desenvolvimento histórico fica impossibilitada, dado tal conjunto inesperado de influências múltiplas.

Popper avança no detalhamento crítico e verifica também que o “método pobre”, como nomeia o historicismo, tem uma grave deficiência quando da tentativa de orientar a ação política. A Engenharia utópica surge então como associada ao historicismo e fixa esta deficiência quando enfrenta dificuldades com os imprevistos empíricos decorrentes do processo de transformação social. O autor caracteriza o tema como de planejamento autoritário e centralizado assemelhando-se ao utopismo e de cunho “holista” – característica que inclusive é descrita como “pré-científica”, à época de Platão. Neste momento do texto, o autor está claramente traçando um paralelo entre a tecnologia de desenvolvimento da “sociedade como um todo”, ou “estágios da história da sociedade”, como prevê o historicismo e a Engenharia de ação gradual, que se caracterizaria pela capacidade mais aguçada de reorientações no decorrer dos eventos e de atuação “por partes”, evitando a tratativa do “todo” e logrando, desta forma, mais poder de análise das intercorrências, fato que levaria a um rearranjo e reprogramação do restante do processo. O fundamental aqui é que os pressupostos teóricos não estão lançados previamente e vão ganhando corpo esquemático no transcorrer de testes e transformações próprias do trabalho científico.

Popper é muito enfático em observar que os experimentos holísticos devem ser tomados como ações cujos resultados são incertos, pois a experiência só ganha robustez quando se toma com afinco a reflexão acerca dos fatos ocorridos na vida social. Uma ilustração foi feita com capricho através da imagem de que “há uma considerável diferença entre um homem de negócios (ou um político, ou um general, ou um administrador) experimentado e um inexperiente”.

Para retomar a linha crítica, o autor chama a atenção para uma característica fundamental já arrolada brevemente no início nesta resenha: a doutrina do historicismo que pretende sustentar uma “a lei da evolução da sociedade”, que determinaria etapas de sucessão e por conseqüência prever em longo prazo o futuro da sociedade. Esta perspectiva, afirma Popper, toma como base a negligência de qualquer possibilidade de desenvolvimento histórico e a compara à Astronomia no sentido de que os historicistas desejam extrair previsões de sistemas que julgam estacionários. O autor traz para a discussão o que ele chama de “confusão” decorrente da observação intuitiva entre leis e tendências. Fica bem exposto em seus argumentos – inclusive citando Mill – que existe a possibilidade de se valer do método de redução (ou dedução inversa) da tendência para um conjunto de leis, todavia não é um método suficientemente preciso, pois a explicação causal completa do evento passa por enunciados iniciais e específicos. Uma condição inicial pode não perdurar no decorrer da explicação como um todo, portanto a crítica foca a postura do historicismo em afirmar que suas leis de desenvolvimento seriam tendências absolutas, o que caracterizaria o tom de “profecias” incondicionais às visões historicistas. Pontua que a confusão não se limita aos termos leis e tendência e vai além, passando para a concepção de que interpretações históricas seriam as teorias em si.

A substituição proposta por Popper reside na argumentação de que a análise deveria tentar, a princípio, determinar as condições para o progresso, sugerindo que o cenário institucional e tecnológico das condições de progresso sejam levadas em consideração. O pressuposto é de que o progresso científico – e neste momento Popper já se posiciona em uma argumentação mais abrangente – depende do grau maior ou menor de detenção das instituições sociais tais como a fala, os livros, as universidades e a escrita. Em suma, não há progresso científico feito de forma isolada, e sim construído a partir de uma livre e rigorosa competição de idéias, ocorrida por meio de hipóteses e testes sucessivos.

Para justificar seu título, se é que se faz necessário após esta trilha de exposições, Popper afirma que a “miséria” do historicismo se remete à pobreza de imaginação, ou seja, exatamente a esta falta de capacidade da corrente em conceber a “transformação nas condições de transformação” no decorrer do desenvolvimento histórico.

À guisa de conclusões, o autor quer reforçar sua postura de que a Ciência deve ocorrer em um ambiente livre e universal, onde as idéias e posições não sejam retidas e que o confronto de idéias permita que teses sejam de fato testadas empiricamente à luz das condições de interferências e refutações. Rejeitando o observacionalismo indutivista, Popper traz consigo a idéia de que a verdade é inalcançável e que a aproximação dela se daria por tentativas, o que faz do estado da Ciência um constante “provisório”. Fica, portanto, a questão que finda o texto do autor e ilustra a perspectiva crítica de um conservadorismo inconsciente delineada nesta resenha: “Não serão, afinal, os historicistas os que se amedrontam com a transformação?”.

 

O texto aqui publicado pode ser reproduzido em trechos ou esua m íntegra, desde que citados o autor e a fonte.

Autor: Eric Vellone Coló

 

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