POLITIQUESE

ANÁLISE DO LIVRO CORAÇÕES SUJOS – A HISTÓRIA DA SHINDO RENMEI A PARTIR DA ÓTICA PLURALISTA | 10 de maio de 2012

O presente texto é uma resenha acadêmica. Sua reprodução parcial ou integral é livre, desde que citados a fonte e o autor.

ANÁLISE DO LIVRO CORAÇÕES SUJOS – A HISTÓRIA DA SHINDO RENMEI A PARTIR DA ÓTICA PLURALISTA

ERIC VELLONE COLÓ

 

A premiada obra Corações Sujos, de Fernando Morais, apresenta uma leitura detalhada, leve e fluída, arquitetada de modo a reproduzir uma história real, ocorrida em solo brasileiro, mais especificamente em São Paulo, durante a década de 40, englobando o ápice da Segunda Guerra Mundial, seu fim e os meses subseqüentes à derrota japonesa. Aos olhos mais “técnicos”, aqui do ponto de vista jornalístico, a obra é mais um livro-reportagem, uma obra de não-ficção; sob a ótica social e política, todavia, o livro é uma excelente fonte de análise e reflexão acerca da temática das associações e organizações.

O objetivo deste trabalho versa, portanto, exatamente nesta possibilidade de se aplicar ferramentas da ciência política para a análise e compreensão dos fatos narrados pelo autor, destacando quais são os elementos e forças presentes no jogo da organização Shindo Renmei, pontuando seus limites e contradições. Para tal feito, a análise vai percorrer as características da abordagem pluralista e desvendar quais delas são ou não encontradas na narrativa e com que intensidade e qualidade são observadas.   

A história da organização Shindo Renmei deve ser compreendida, primeiro, dentro de um momento histórico e até geográfico muito específico e que certamente colaborou para sua estruturação e atuação: a imigração japonesa no Estado de São Paulo. A colônia japonesa em território brasileiro começou sua formação no final do século XIX e com mais afinco e “oficialidade” no início do século XX; sua imigração está bastante relacionada à difícil condição econômica dos camponeses japoneses, que neste período se defrontaram com a falta de terras e de empregos em sua terra natal.

A chegada da população japonesa ao porto de Santos foi impulsionada pela crescente necessidade de mão de obra, como inclusive é verificado por Morais (p.256) através de trechos das falas de alguns deputados constituintes quando, por exemplo, o deputado Dolores de Andrade afirma que “o Brasil está carente de 1 milhão de braços”. A intenção, portanto, da grande parte dessa população era enriquecer através do trabalho e retornar às origens no Japão. O choque cultural, entretanto, não pode ser desconsiderado, pois o cotidiano nos trópicos brasileiros era bem diferente da realidade asiática: “comida intragável”, “clima diferente” e “costumes, religião e até caras diferentes das deles” como aponta Morais (p.25).

Pioneiros em áreas completamente “vazias” do sertão paulista, a vida dos japoneses em solo brasileiro não se apresentava de forma fácil, pois as minúsculas cidades que nasciam ou cresciam junto à expansão agrícola não ofereciam estrutura de assistência médica nem sequer equipamentos escolares e acabavam por submeter a população nipônica praticamente a um regime de trabalho semi-escravista. Com a Primeira Guerra Mundial o número de imigrantes japoneses só fez aumentar e por volta de 1935 a colônia já perfazia um total de 200 mil habitantes espalhados entre o litoral, a capital e o interior. É fundamental registrar que o governo de Getúlio Vargas havia proibido a publicação de jornais e revistas no idioma dos países que componham o eixo (Alemanha, Itália e Japão), bem como proibira também o ensino de seus respectivos idiomas e até seu uso em ambiente público. Certamente os que falavam português eram minoria. Os japoneses foram cerceados inclusive no direito de reunião e comércio. Declarada guerra ao eixo, os japoneses perderam sua representação diplomática no Brasil. A colônia nipônica estava sufocada e silenciada.

Também é digno de registro o fato de que, à época, o Brasil (a exemplo de boa parte do mundo) passava por um momento de fortes discussões racistas que permeavam o debate a respeito da política de imigração, que seria escrita junto à Constituição; inclusive, Fernando Morais (p.291) transcreve declarações públicas de deputados que exigiam “exame da sanidade mental de todo e qualquer representante da raça amarela que pretendesse vir ao Brasil” ou ainda (p.294) deputados tais como o senhor Adroaldo da Costa que declaravam que “os japoneses são como o enxofre, são insolúveis, não se deixam assimilar. Irão constituir quistos raciais (…)”. A colônia estrangeira havia desenterrado ódios nacionalistas e teorias de melhoramento racial eugenistas rondavam a população japonesa.

Delineado o cenário, a análise agora vai buscar a associação Shindo Renmei, nascida em 1942. A princípio, a organização fora fundada com a intenção de preservar, em tempos de guerra, a milenar cultura japonesa e realizar a manutenção da imagem sagrada do imperador Hiroíto. Morais (p.102) expõe a fala inicial do “fundador” Junji Kikawa em um momento de festa e consagração: “No tempo de guerra, a única forma de mostrar nossa fidelidade à pátria é cumprir com as obrigações dos súditos do trono. A colônia já não está mais órfã. O imperador não será mais ultrajado no Brasil. Hoje nasceu a Shindo Renmei, a Liga do Caminho dos Súditos. Longa, muito longa vida à Shindo Renmei!”. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, a organização patriótica passa a sistematicamente ignorar a derrota japonesa e a disseminar ameaças aos “derrotistas”. Com o orgulho aflorado e ferido, os japoneses da associação organizam uma seqüência de 23 assassinatos e montam um aparato de educação e comunicação que abalariam a polícia e a política à época. Toda sua estrutura de jornais e revistas falsificados, rádios e escolas clandestinas e “atentados” mobilizou a massa japonesa e de acordo com os registros 75% da colônia suportava a idéia de que o Japão não havia perdido a guerra. Até como provável decorrência do ambiente de segregação (aqui já delineado) em que se encontrava o país, os associados da Shindo Renmei seguiam um procedimento ritual de reclusão, quietude e dispersão durante interrogatórios policiais (p.144) “jamais delatar um companheiro (…) confundir e desviar a atenção da polícia”. É questão, todavia, a ciência de que os atos praticados pelos membros da associação eram crimes, como evidenciado diversas vezes pela narrativa (p.157): “quando a tarefa chegasse ao fim (…) o grupo deveria se entregar às autoridades; quem fosse apanhado pela polícia durante uma ação deveria se entregar sem reagir, já que a organização nada tinha contra o Brasil ou os brasileiros”.  

Para controlar a situação, o governo brasileiro utiliza fortemente o DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) e inicia uma série de prisões e interrogatórios que culminam na detenção de mais de 30 mil suspeitos, 381 condenados e 80 deportados ao Japão. Desgastada com as prisões, esvaziada e pressionada também pelos próprios brasileiros, a organização vai perdendo força e finalmente em 1947 deixa de atuar.

Permeando fatalmente a exposição desta estrutura fica evidente o papel central e focal do grupo organizado, ou seja, da associação que congrega os interesses comuns. É nesta base que se assenta o pluralismo político, que se configuram os pressupostos de interesses e que a pluralidade é tida como valor. Refinando o conceito, pode-se trazer à baila Robert Dahl escrevendo em Poliarquia: Participação e Oposição (p.46) que “em qualquer país, quanto maiores as oportunidades de expressar, organizar e representar preferências políticas, maior a variedade de preferências e interesses passíveis de representação na política”. Seu argumento (p.49) calibra o ideal político de que quanto mais pluralismo melhor para a sociedade e que “o aumento da parcela de população capacitada a participar (…) terão conseqüências importantes (…) e desejáveis, que os benefícios freqüentemente (quando não sempre) superam as conseqüências adversas (…)”. Aliás, é fundamental aqui registrar que o pluralismo não vai trabalhar com juízos de valores a respeito de um determinado interesse ser “bom” ou “ruim”, e sim com a validade do mesmo.

Certamente o argumento de Dahl está circunscrito à teoria da participação política efetiva e o grupo Shindo Renmei de fato não fora constituído com esta finalidade e chega a ser descrito por Fernando Morais em determinada altura da obra (p.161) como “grupo de crianças brincando de matar”; todavia, o que salta aos olhos da análise é o viés de associação que permeia o conceito. Nesta mesma linha e para justificar os alinhamentos, Arthur Bentley defende durante toda sua obra que a ciência política seja uma escrita dinâmica a respeito das interações de grupos e das instituições que se tornam públicas. Seu trabalho The Process of Government de 1908 retrata exatamente como os grupos são a base da vida política e como os movimentos sociais são a expressão destas associações.        

Oportunamente, Morais, logo no início de sua narrativa (p.31), traça um cenário que ilustra a necessidade de organização, retomando a precariedade das “cidades” do interior, o texto revela que “na ausência de autoridade e serviços públicos, essas funções eram exercidas pelas cooperativas (…) a instalação de postos telefônicos, a abertura de estradas vicinais e às vezes até o papel de polícia e de prefeitura ficavam a cargo de entidades privadas ligadas aos imigrantes”. Notadamente uma postura diferente da encontrada quando da criação da Shindo Renmei, e que vai de encontro a uma não-previsão do pluralismo, pois no caso da organização de cidades a ação é baseada na ausência de esferas de poder e autoridade; já a organização “criminosa” se baseou mais em uma clivagem social, como será visto ainda nesta análise a seguir. Essa clivagem também foi denunciada nos diversos momentos em que os japoneses “derrotistas” e os próprios brasileiros se movimentam num sentido de autodefesa; “os brasileiros praticavam a delação abertamente, certos de que estavam prestando um serviço à pátria” (p.49), ou ainda no fim da obra quando (p.274) “indignados com as duas mortes, os brasileiros de Tupã resolveram imitar os vizinhos de Osvaldo Cruz e ir à forra contra a japonesada”. Não se observa aqui, certamente, um movimento de temor à dominação política, nos contornos de Dahl, todavia a definição de dominação como quando o controle de uma determinada situação é unilateral, resistente, custosa e de interferência a assuntos relevantes entra em pauta quando os próprios brasileiros e japoneses “esclarecidos” atuam em contra movimento aos “vitoristas”.         

Citando Madison, Robert Dahl define, em Um Prefácio à Teoria Democrática, (p.15) que “uma facção é um número de cidadãos, mesmo maioria ou minoria, que está unido e atuante por algum impulso de paixão ou interesse (…)”. São estes interesses que Corações Sujos lista (p.102) quando recupera as organizações japoneses que atuavam no Brasil até 1942 “quase todas voltadas para o culto de valores patrióticos” e que abarcavam objetivos vários, tais como o de exaltar o imperador, cultivar a paz de espírito, associação de ex-militares e até organizações exclusivamente femininas. No trato da Shindo Renmei, a questão observada recai sobre a formação de uma clivagem interna ao grupo dos japoneses e que o dividiu entre os kachigumi, em absoluta maioria e cujos sentimentos eram “patriotas” ou “vitoristas”, afirmando a vitória do Japão perante os Aliados; e os makegumi, a minoria da colônia que de fato compreendeu a derrota nipônica e que a partir de então foram vistos como “derrotistas”, como “japoneses de corações sujos”.

Munida de amplo financiamento devido aos mais de 100 mil sócios-contribuintes e 700 mil cruzeiros arrecadados ao mês, lideranças profissionalizadas através de direção remunerada, infiltrada em casas de comércio pelo interior e bases dispersas por mais de 64 municípios, a Shindo Renmei “parece ter se dedicado mais ao trabalho de unificação da colônia” (p.104); atuando com afinco na tarefa de aliciamento e manutenção da organização interna, a associação pode sim ser classificada também como de uma determinada “elite”, uma vez que as fontes de financiamento eram várias, porém as mais significantes eram de grandes empresários ou profissionais liberais. Está nesta linha mais um item de abordagem pluralista, uma vez que nesta teoria os interesses têm o mesmo valor e o peso do maior ou menor poderio econômico não é balizado.

À luz do pluralismo, um aspecto fundamental e que não se pode olvidar junto à análise da Shindo Renmei é seu viés não-político, em outras palavras, a não intenção de tomar posições políticas a princípio. Para Robert Dahl (p.36) “associações como estas, baseadas na família, na religião e na vida cultural são, sem embargo, menos centrais para o problema da autonomia e o controle das ordens democráticas modernas”. A associação de Kikawa iniciou sua atuação sem nenhum tipo de oficialização ou regulamento expresso; somente após muitos reveses é que se constata a intenção de (p.117) “falar com a autoridade (…) (para) pedir autorização para funcionamento da Shindo Renmei”. A suposta autorização, que indubitavelmente virara motivo de chacota, uma vez que as sociedades estrangeiras estavam todas proibidas, só foi solicitada quando a organização notou a necessidade de “pedir à autoridade para proibir a propaganda (…) pregando o derrotismo”. De fato, no documento entregue ao DOPS a Shindo Renmei esclarece que “não é uma sociedade política nem uma sociedade secreta”.

Complementando a questão acerca da interferência do Estado, a leitura de Paul Hirst em seu trabalho Associative Democracy revela (p.44), com sua postura pluralista radical, que “seres humanos devem se associar uns aos outros a fim de complementar propostas comuns” e adiciona com ressalva que “o Estado ou a força pública pode somente interferir na liberdade de uma associação ou para preservar as liberdades individuais ou para prevenir ameaças à liberdade ou interesses de outras associações”. A associação em questão, portanto, pecou em sua falta de responsabilidade ao não legitimar seus interesses e acabou por se perder em acusações vagas, denúncias irreais e violência desmedida, a ponto de, por exemplo, mandar executar um japonês somente pelo fato de o mesmo “não comungar do ideal que anima os membros da nossa organização” (p.208).

O pluralismo prevê a liberdade de expressão, manifestação e opinião dos mais diversos grupos de interesses, prevendo inclusive sim o conflito, todavia, não se pode esquecer que o pluralismo é linguagem política de regimes democráticos e que, portanto, não há espaço jurídico para associações que prevêem atentados de morte. É possível desenhar, então, um cenário de tal massivo ônus (representado pelas perdas de vidas humanas e pela perda de ordem pública) que justifique a “inviabilidade” da associação Shindo Renmei.

 

 

BIBLIOGRAFIA

MORAIS, Fernando. (2000), Corações Sujos. 3ª edição, São Paulo, Companhia das Letras.

DAHL, Robert. (1997), Poliarquia e Oposição. São Paulo, Edusp.

____________. (1991), Los dilemas del plurslismo democrático. Autonomía versus control. México, Alianza Editorial.

BENTLEY, Arthur. (1908), The Process of Government: A Study of Social Pressures. Chicago, University of Chicago Press.

HIRST, Paul. (1994), Associative democracy. New forms of economic and social governance. Amherst, University of Massachusetts Press.

 

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ERIC VELLONE COLÓ

 

 

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