POLITIQUESE

ANÁLISE DO FILME CLUBE DA LUA A PARTIR DA ÓTICA NEO-TOCQUEVILLIANA E PÓS-MARXISTA | 16 de julho de 2012

A atual análise é resultado de trabalho acadêmico. Sua reprodução parcial ou integral é livre, desde que citados a fonte e o autor.

 

 

 

ANÁLISE DO FILME CLUBE DA LUA A PARTIR DA ÓTICA NEO-TOCQUEVILLIANA E PÓS-MARXISTA

ERIC VELLONE COLÓ

O cinema argentino, em Clube da Lua, revela uma faceta hiperrealista que tanto é peculiar ao gênero de filmes de dramas sociais contemporâneos mais densos. Neste filme de 2004, o diretor Juan José Campanella lida com efeitos de silêncio bem prolongados e transições de imagens em tons sem brilho, realçando o tom melancólico e de resgate da memória. Certamente não é a proposta deste trabalho fazer uma análise a respeito do filme como produção artística, entretanto, quando a análise pretende retomar as relações da sociedade civil e seus laços com as associações no período histórico mais recente, é fundamental compreender o cenário como um todo, como uma redescoberta onde os efeitos sociais são de integração e a sociedade civil pode ser compreendida como produtora de confiança mútua.

Nos próximos parágrafos, portanto, a tarefa será de reconstruir, primordialmente, os argumentos das linhagens neo-tocquevilleanas e marxistas (neo e pós), pontuando leituras possíveis, críticas, conexões e assimetrias entre tais teorias e o desenrolar do filme de Campanella.

Brevemente, o filme retrata a história de um clube social e esportivo do subúrbio industrial de Buenos Aires que vivera tempos de glória durante a década de 1940, quando seu salão era freqüentado por praticamente todos os habitantes da região, dos mais variados estratos da sociedade, incluindo famílias inteiras, casais de idosos e grupos de jovens. Com um salto no tempo, o filme passa para o início do século XXI e toda a realidade da crise financeira enfrentada especialmente pela Argentina. O clube está decadente, pulverizado pelas dívidas e pelo esvaziamento dos sócios. Os personagens principais da película são aqueles que têm maior vínculo com o clube, um vínculo até mesmo de sangue (no caso de Román Maldonado, que nasceu dentro do clube e foi o primeiro sócio vitalício) que os une e os faz trabalhar para evitar o fechamento definitivo do clube, que a esta altura serve mais como um centro esportivo e atividades de dança e recreação.

Tal vínculo, inclusive, é a tônica do filme e traz à baila a possibilidade de oportunamente desenharmos um cenário de comunidade cívica. Quando o neo-tocquevilliano Robert Putnam trata das instituições como variáveis dependentes e que elas assumem real importância, pois fazem a diferença e produzem, de fato, efeito, defronta-se com um cenário no qual quanto mais associações entre os indivíduos, maiores são os efeitos positivos sobre determinada comunidade cívica. Em Comunidade e Democracia, Putnam (p.185) afirma diretamente que “a filiação de grupos horizontalmente organizados como clubes desportivos (…) deve estar positivamente relacionada com o bom desempenho governamental”. Sem rodeios, o autor retoma a antiga tese de que cidadãos virtuosos estão à disposição de trabalhar pelo bem comum, a ação coletiva é tida como um fato. Para não deixar de notar, a expressão “horizontalmente organizados” se aplica bem ao recorte, pois em Avellaneda não se observam hierarquias salientes: o próprio presidente fundador, Don Aquiles, em determinados momentos inclusive, é até tratado com desdém e de forma enfadonha, não havendo a mínima cerimônia; os sócios estão todos no mesmo patamar de voto e expressão de voto quando de deliberações.

Avançando no argumento de Putnam, urge definir seu conceito de capital social e associá-lo ao clube. Capital social pode ser descrito como qualidade da estrutura social, ou em outras palavras, é grau de confiança. A vida social dependeria da confiança irrestrita, baseada na reciprocidade e na cooperação. Vale ressaltar aqui que inúmeros são os momentos de reciprocidade e cooperação durante o filme, passando pelos exemplos de um sócio médico que prontamente auxilia no parto de uma criança dentro do salão; pelo auxílio que Román recebe para morar na casa de seu amigo; pelo trabalho em conjunto na tentativa de reavivar as festas promovidas pelo clube; pela mobilização que o time de basquete faz a fim de evitar o fechamento do clube; entre outros. Putnam prevê um contínuo de incremento de oportunidades mútuas, pois tais recursos morais são cumulativos e multiplicadores. Em suma, o clube pode ser lido como este estoque de confiança, como esta estrutura de cooperação que permeia o social e estimula o engajamento participativo.

A linhagem tocquevilleana deve ser lida em um ambiente bipartite, no qual Estado e sociedade estão separados e definem a vida social. A sociedade civil como um todo é tomada como rol de associações que compõem um bom governo local. O bom governo, portanto, estaria associado à interferência de cidadãos organizados, em uma sorte de complemento e auxílio no nível local. A pequena Dalma, menina pobre que mora nos fundos do clube e é “adotada” como aluna de balé não-pagante, pode ser figura que representa este complemento. Não obstante, quando Román e Don Aquiles vão à prefeitura pedir por isenção de uma determinada multa o argumento principal é a “contribuição” que o clube presta ao entreter e lecionar para quase 300 crianças e adolescentes.

Saindo da perspectiva bipartite, a análise incorpora Jean Cohen e Andrew Arato e suas possibilidades tripartites que descolam Mercado, Estado e Sociedade. A sociedade civil ganha ares de pano de fundo compartilhado por todos os envolvidos tanto no mundo sistêmico quanto no mundo da vida. Em Sociedade Civil e Teoria Política (p.440) os autores afirmam que “esta circunstância nos força a redefinir nosso conceito de sociedade civil como moldura institucional (…) que incluirá esferas públicas e privadas”. O modelo tripartite separa âmbitos de atuação e prevê relações de insumo e produto: o Estado gera regulação ao mercado e à sociedade civil em contrapartida recebe grau de legitimidade. Valendo-se de mais uma passagem do Clube da Lua, na ida dos representantes do clube até a prefeitura fica clara a situação de isenção total de impostos que o clube recebe, certamente motivada por alguma normatização (que não é abordada no filme).

Em Habermas, a princípio, as associações não teriam papel específico, uma vez que sua teoria não depende de atores em específico, e sim de consensos que permitem a fluidez de processos de comunicação. Certamente, quando necessário à crítica, o autor esclareceu que as associações desempenhariam um papel no espaço público pois “subiriam” os conceitos presentes no mundo da vida para o âmbito mais relevante das instituições. Sua função estaria ligada à defesa da esfera pública, já que sua manutenção é clara permissão para que as aspirações do mundo da vida sejam realizadas na esfera pública. Exemplo seria estudar o clube de Buenos Aires como agente “vitalizador” do espaço público. Em outras palavras, Habermas prevê as associações mais como um complemento do que um primórdio.

Esta análise é marxista, uma vez que os autores já não encontram espaço para uma utopia sintética, e sim para uma utopia pela diferenciação. Uma diferenciação através de um projeto moral, no qual haja reflexão, democracia, regulamentação e que não almeje o poder. Pontua-se brevemente que durante todo o desenrolar das atitudes dos sócios mais influentes do clube não há menção alguma acerca de tomada de cargos em posições políticas. Todas as discussões e esforços são para o fortalecimento do clube.

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAMPANELLA, Juan José. Clube da Lua. [Filme-vídeo]. Produção de Adrian Suar, direção de Juan José Campanella. Buenos Aires, 2004. DVD. 145 min.

PUTNAM, Robert. Comunidade e democracia – A experiência da Itália moderna. Rio de Janeiro, FGV, 2002.

COHEN, Jean e ARATO, Andrew. Sociedad civil y teoria política. México, Fondo de Cultura Económica, 2001.

Site http://formacaodocente.autenticaeditora.com.br/artigo/exibir/8/20/2 acessado em 20/06/2012.

Site http://filmesquevejo.blogspot.com.br/2010/06/clube-da-lua.html acessado em 20/06/2012.

 

ERIC VELLONE COLÓ

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