POLITIQUESE

Análise do filme “O Senhor das Moscas”

26 de abril de 2013
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Análise do filme “O Senhor das Moscas”

Eric Vellone Coló

 

              Quando a análise se debruça sobre o filme “O Senhor das Moscas” é possível abranger uma grande gama de temas e recortar diversos objetos de estudo, tanto das ciências da educação quanto da sociologia. O filme de 1990 (e também o primeiro roteiro em preto e branco de 1963) é a adaptação do livro homônimo de William Golding, prêmio Nobel de 1983. Nesta breve incursão pelo filme, o diálogo explorará uma análise acerca da socialização (ou das socializações) que o grupo de estudantes acidentados e perdidos em uma ilha experimenta.

            Para tal feito, é fundamental recuperarmos a clássica definição do conceito de socialização, que afirma ser este o processo pelo qual a sociedade enquanto grupo “ensina” ou “demonstra” aos seus membros constantemente quais são as regras e costumes vigentes. Certamente seguindo estes primeiros passos com Emile Durkheim, é possível observar o processo de socialização como “processo de assimilação dos indivíduos aos grupos sociais” (DURKHEIM, 1922). Em suma, uma interiorização simbólica de normas e valores de uma determinada cultura.

Traduzindo e esclarecendo o termo, Peter e Brigitte Berger (1975) afirmam que “os adultos apresentam-lhe certo mundo – e para a criança, este é o mundo”, de modo que a socialização é lida como um processo contínuo e extremamente forte de transmissão de regras, mecanismos, símbolos, práticas e procedimentos. Aqui, uma primeira ressalva deve ser feita, pois o processo de socialização tradicionalmente é compreendido em dois momentos: a socialização primária, que perfaz o período da infância e geralmente é associada ao ambiente doméstico e familiar; e uma socialização secundária, que é operada por instituições, tais como a escola, o mundo do trabalho e as religiões, por exemplo.

Não é divergente, portanto, a afirmação dos Berger (1975) de que “os adultos exercem um poder avassalador sobre a criança” e que, então, durante o filme os dois bandos atuem de modo antagônico com relação ao único adulto sobrevivente, pois “são os adultos que trazem a maior parte das recompensas pelas quais anseia a criança e dos castigos que teme”. Ambos grupos o temem, porém um deles anseia a melhora e o cuidado e o outro o despreza.

De fato, a literatura mais recente e esta própria observação crítica do filme dão um passo fundamental para além deste cenário tradicional a fim de avançar nesta discussão e introduzir um viés de mão dupla no processo de socialização: tanto Suzzane Bouvier (1994) quanto os Berger (1975) propagam um conceito de socialização interacionista que vincula os vetores e acaba por invertê-los, pois o indivíduo não é de todo passivo e de tal sorte que é moldado e molda, através de resistências e divergências durante as construções simbólicas.

Ainda na linha de um conceito de socialização, adiciona-se o fato de que o mecanismo do desempenho de um “papel” é agente básico deste processo de aprendizado, pois George Mead apresentou definições importantes para considerações a respeito do comportamento de imitação e identificação de sentido entre os atores. Mead, inclusive, afirma que o grau de interação está intimamente ligado ao grau de intensidade e frequência que as relações entre estes atores ocorrem. Neste sentido, a criança aprende a desempenhar um papel (e toda a carga simbólica e prática que o termo possa carregar) de um outro ente da interação. Fica elucidado, portanto, o aparecimento de uma liderança bem assemelhada aos professores militares, com direito à frase “precisamos de regras”, proferida por uma das crianças assim que um tumulto atinge o bando.

Continuando a nuance da argumentação sobre a “imitação”, lemos com mais facilidade as cenas nas quais as crianças criam uma espécie de “multa” caso alguém responsável pela fogueira sinalizadora se atrase no cumprimento da tarefa ou ainda nos castigos que são impostos aos “ladrões” e “violentos”. As crianças estão demonstrando que internalizaram os comandos e proibições que aprenderam com os adultos e que, agora, lhes parecem como normas gerais “naturais”. A título de exemplo, o personagem Porquinho assume que “fizeram tudo o que os adultos fariam e não deu certo” evidenciando o caráter de socialização com forte influência das atitudes e normatizações dos adultos.

A explicação da formação de dois grupos com comportamentos distintos dentro da ilha é pincelada, portanto, quando se assume que as primeiras crianças mais “rebeldes” tiveram um processo de socialização que as conduziram a tal comportamento mais radical, inclusive não desejando a volta ao lar e comemorando o fato não haver mais “professores, pais e garotas”; retomando uma frase de impacto de Bouvier, “a criança não existe” e então este rebelde é tomado como um indivíduo que foi inserido em um grupo com modelos padronizados e particulares. Como reforço da tese, arrola-se o fato de que a carga de experiências se integra à realidade e as crianças passam a questionar e refutar os adultos respondendo-os (Berger, 1975).

Desta feita, por ser um processo de mão dupla, observamos que alguns integrantes “desertaram” do grupo dos estudantes preocupados com o retorno ao lar e se “alistaram” aos caçadores que propunham estabelecer um “lar” em que as horas não importavam e o cotidiano e a alimentação se vestiram de tons animalescos. A análise lê novamente a socialização não interiorizada de forma integral que, com o cenário de ausência de limitações e imposições face a face, possibilitou o surgimento de assassinos, ditadores, saqueadores e oportunistas.

O filme consegue retratar, portanto, uma leitura onde uma má socialização acarreta um grande prejuízo à formação de adultos conscientes do mundo que os cerca e que há responsabilidades envolvidas na interação. A precariedade da socialização de algumas crianças ficou evidente quando os dois grupos se formaram e na sequencia praticamente todos os indivíduos passaram a recusar a postura “tradicional” e “correta”, agindo, de fato, como atores sociais e intervindo no sentido de adotar uma postura selvagem que retrada a ausência de socialização.

 

Eric Vellone Coló

 

BOUVIER, Suzanne. Transformação dos modos de socialização das crianças: uma abordagem sociológica. In: Educação e Sociologia, vol. 26. 2005.

BERGER & BERGER, Peter e Brigitte. Sociology – A Biographical Approach. 1975.

DURKHEIM, E. Education et sociologie. Paris. 1922.

 


Políticas Sociais e Voto: um breve olhar sobre 2006

18 de abril de 2013
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Políticas Sociais e Voto: um breve olhar sobre 2006

Eric Vellone Coló

Quando a análise se debruça sobre o texto de Hunter e Power “Recompensando Lula. Poder executivo, Política Social e as Eleições Brasileiras de 2006”, publicado em 2007 se está diante de uma produção crítica a respeito do desenvolvimento e das perspectivas das políticas sociais no Brasil, possibilitando um amplo exame do impacto e da consequência da aplicação dos programas sociais de Lula e seu governo.

A princípio, é fundamental notar que o trabalho dos autores pontua que o escândalo de corrupção política ocorrido no primeiro mandato de Luis Ignácio Lula da Silva teria provocado um “descolamento” entre o voto no Partido dos Trabalhadores (PT) e o voto no candidato Lula. Para efeitos de análise no decorrer da argumentação, este “descolamento” teria sido garantido pela implantação das políticas sociais e sua posterior eficácia.

Escrito com outras palavras, o voto de 2006 comprovaria que a base eleitoral do presidente Lula sofrera uma mudança: o número de votos dos eleitores pobres beneficiados com o programa de transferência de renda aumentou. A geração de renda pelo programa explica o “voto econômico” dado a Lula em 2006. Ratificando a análise, os números da pesquisa demonstram correlação entre o Índice de Desenvolvimento Humano e voto em Lula, ou seja, quanto menor o IDH da região (consequentemente mais beneficiários do Bolsa Família), maior a votação em Lula.

Em consonância a esta linha de argumentação, a análise pode recorrer a Alberto Almeida e seu “postulado” de que com alta aprovação de governo, há alta votação da situação. É inegável que programas sociais de transferência de renda geram altos índices de aprovação devido ao bem estar produzido por entre os beneficiários.

Quanto à importância destes programas para a redução da pobreza e desigualdade no Brasil, é possível mencionar o trabalho de Sergei Soares (2006). Durante a exposição de seus números, Sergei afirma que a redução da desigualdade de renda deve ser explicada, em partes, pelas políticas federais, tais como o Programa Bolsa Família. O período de análise, de 2000 a 2004, revela que mais de um quarto das modificações das desigualdades dos estratos econômicos da sociedade são explicados pela transferência de renda e pela política previdenciária. Os outros três quartos da mudança são atribuídos à dinâmica da distribuição de renda provocada pelo mercado de trabalho aquecido.

Dado tal cenário, duas interpretações são possíveis: a primeira, do próprio Sergei, prevê que o país finalmente engendrou sucesso na aplicação das políticas sociais, celebrando até o ineditismo; a segunda pode decorrer a um texto mais antigo, de Ricardo Paes de Barros, Ricardo Henrique e Rosane Mendonça, através do qual os autores não celebram resultados positivos das políticas sociais e atribuem alguma redução da desigualdade ao crescimento da economia.

Apostando na hipótese do sucesso do programa Bolsa Família, somamos o argumento de Marcelo Nery ao afirmar que Bolsa Família é, sim, importante e eficaz no combate à pobreza, pois tem um caráter mais “massivo”.

Possíveis embates à parte, é primordial ler que o sucesso eleitoral de Lula em 2006 fez surgir uma importância a mais das eleições para as políticas sociais: as campanhas e os governos passam a priorizar tais benefícios, mirando o “voto econômico” descrito no início deste artigo. Depois de 2006, é possível afirmar que as políticas sociais adquirem um aspecto de moeda de troca durante o combate eleitoral, onde os benefícios tangíveis propostos pelos programas chamam a atenção do eleitor e garantem voto.

Consequência direta desta postura é a expansão das políticas sociais.

E é exatamente quando a análise identifica o cenário de expansão das políticas sociais que surge o momento de relacionar tais políticas ao modelo de governo como um todo. Aqui, cabe ressaltar que a Constituição de 1988 encerrou com qualquer possibilidade de cidadania regulada e universalizou direitos sociais. O Sistema Único de Saúde e as demais políticas sociais decretaram a desmercantilização completa do cidadão.

A título de conclusão, portanto, cabe o questionamento de até onde a sociedade como um todo “aceita” pagar os custos daquela expansão das políticas sociais frente ao arrolado país “desmercantilizado”; ou seja, quanto mais políticas públicas de cunho social, maior o número de impostos que financiem as mesmas. Não é possível olvidar que taxação tem custo político e que um olhar em perspectiva pode ver impostos como um “freio político” à expansão de políticas sociais no Brasil.

Eric Vellone Coló

 

 

Hunter, W. e Power, T (2007). “Recompensando Lula. Poder executivo, Política Social e as Eleições Brasileiras de 2006”. In: Melo, C. e Saez M. (2007) A Democracia Brasileira. Balanço e Perspectivas para o século 21. Belo Horizonte. Editora UFMG.

Soares, Sergei (2006). Distribuição de Renda no Brasil de 1976 a 2004 com ênfase entre 2001 e 2004. Texto para discussão IPEA nº1166.

Barros, R., Henrique, R. e Mendonça, R. (2000) Desigualdade e Pobreza no Brasil: retrato de uma estabilidade inaceitável. Revista Brasileira de Ciências Sociais, 15 (42).

*Reprodução parcial ou total permitida, desde que citados a fonte e o autor.

 


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