POLITIQUESE

ANÁLISE DO FILME HOFFA – UM HOMEM, UMA LENDA A PARTIR DA ÓTICA NEO-CORPORATIVISTA | 9 de maio de 2012

O presente texto é uma resenha acadêmica. Sua reprodução parcial ou integral é livre, desde que citados a fonte e o autor.

ANÁLISE DO FILME HOFFA – UM HOMEM, UMA LENDA A PARTIR DA ÓTICA NEO-CORPORATIVISTA

ERIC VELLONE COLÓ

Jimmy Hoffa é um personagem importante e intrigante da história dos Estados Unidos. Líder sindicalista dos caminhoneiros (ou em uma tradução mais livre, os funcionários dos transportes), atuou com afinco desde a década de 1930 até meados de 1975, quando desapareceu misteriosamente e desde então até hoje seu corpo não fora encontrado. A produção Hoffa, de 1992, traça o caminho tortuoso deste líder desde o início das lutas sindicais até sua morte, retratando principalmente o período de 1958 até 1971 quando ocupou o cargo de presidente do sindicato.      

                  A intenção desta análise é percorrer a trajetória do filme salientando aspectos característicos das associações e organizações, uma vez que Hoffa foi o principal articulador para o crescimento do que à época fora o maior sindicato dos Estados Unidos, atingindo 1,5 milhões de filiados. Pretende-se recorrer às ferramentas do neo-corporativismo a fim de se verificar posturas congruentes ou incongruentes aos postulados desta corrente teórica que retrata o conjunto de mudanças ocorridas nas relações entre o Estado e as organizações representativas dos interesses particulares.

                  A análise do sindicalista Jimmy Hoffa e seu sindicado dos caminhoneiros a partir da ótica neo-corporativista é uma feliz e oportuna situação, partindo do pressuposto de que o neo-corporativismo é exatamente um arcabouço de instrumental que propõe um corporativismo “societário” que guia a política para além do voto; recaindo em análises de grandes associações e grandes sindicatos participando da arena decisória em determinados campos políticos. A luta de Hoffa e a trajetória de seu sindicato são excelente campo de observação, pois os elementos vão se conversar em demasiado.

                  A corporação prevista pela teoria é um sistema de interesses e/ou sistema de representação que une grupos organizados aos tramites de governo, de forma a articular um acordo coletivo envolvendo Estado, capital e trabalho. O fundamental aqui e que vai diferir da visão pluralista (uma visão que observa “pressões”) é o grau de institucionalização e estruturação, pois o neo-corporativismo prevê estes grandes grupos institucionalizados em categorias singulares e não-competitivas, em outras palavras, as representações são “monopolistas” e se diferem funcionalmente para efetivamente acessar o Estado. Categorias que inclusive são compulsórias em seus vínculos e atuam em troca do controle exclusivo das relações com o Estado. Tanto no filme como no escopo da teoria, o fundamental é verificar a centralidade dos interesses, ou seja, a questão para Hoffa (independentemente de motivações financeiras e possíveis corrupções, como será visto a seguir) é fazer valer a justiça trabalhista, garantir direitos e angariar benfeitorias aos trabalhadores que representa. Os interesses de grupo são a tônica desde o início da narrativa, exemplificada nas diversas falas do líder que pregava ter “raízes comuns” aos trabalhadores e que “tinha que alimentar a família tal como todos os trabalhadores”.

                  É nesta veia que a análise traz à baila a questão da densidade e o domínio desta representação, pois no neo-corporativismo a densidade de filiação, ou seja, o número de filiados não depende da vontade e motivação dos indivíduos e sim da capacidade de atuação do sindicato (associação) junto aos interesses coletivos. Explica-se então a ferrenha disputa sindical retratada no roteiro do filme, buscando maior espaço e posição de representação.  

                  Vale ressaltar aqui que, como pressuposto normativo, tais interesses no neo-corporativismo recaem crucialmente ao mundo trabalho e aos interesses materiais, de modo a se afastar da pluralidade de possibilidades de interesses de organização que autores como Robert Dahl, John Manley e David Schlosberg, de linhagem pluralista, admitem positivamente. Seria uma busca por interesses primordiais, de cunho mais igualitário, tornando a concentração (centralização) um fator importante para tornar compulsório, do ponto de vista de que quanto maior a pluralidade, menor o grau de representação de interesses. Desenho quase perfeito desta premissa é a fala de um dos oradores sindicalistas durante um piquete de greve que assume o sindicato International Brotherhood of Teamsters como “o único amigo que você tem”. 

                  A consolidação democrática prevista por Philippe Schmitter está intrinsecamente ligada às estruturas de intermediação de interesse, em sua independência. Sua visão realista afirma a posição forte do Estado e define a democracia exatamente como este composto de regimes institucionais de representação agregados em torno de vários locais de representação a fim de solucionar e gerir o atendimento de interesses. Escrevendo em The Consolidation of Democracy and Representation of Social Groups, Schmitter (p.425) afirma que “o núcleo do dilema da consolidação repousa em arregimentar uma gama de instituições em que políticos possam concordar e que os cidadãos estejam dispostos a apoiar”. É nesta instituição que Hoffa está inserido, quando se reúne para dialogar com representantes do governo e está munido de posição forte o suficiente para fechar acordos.

                  Em consonância ao pluralismo, também o neo-corporativismo não tem ambições políticas; em tempo, não tem ambições político-partidárias, pois concebe as associações de interesse como um ente fora do regime constitucional e não podem ser colocadas no mesmo balaio dos partidos políticos, pois esses sim interagem diretamente junto ao governo durante processos eleitorais. A chave de compreensão é diferenciar governo (mais contingente) de Estado. Para exemplificar, é retomada a fala exaltada de Hoffa perante a tribuna de investigação quando o provocam insinuando envolvimento do partido e dele mesmo com “comunistas”. O líder sindical afirma veementemente que não é “guiado” nem “influenciado” por comunistas e que pessoalmente tomava a insinuação como uma ofensa grave. Obviamente lê-se o momento histórico de guerra fria combate ao socialismo em solo estadunidense em que se deu a fala de Hoffa, entretanto é possível ler, por detrás de ideologias, a intenção clara de não vincular seu nome e seu sindicato a nenhuma corrente política.   

                  Também pensando esta relação entre a associação e Estado, Claus Offe observa o fato de “alguém” passar a representar o grupo de interesse vir a regular a racionalidade, pois a demanda passa a ser induzida, o estatuto institucional tem um parâmetro político e é chancelado por um único ator. De forma mais direta, o Estado não assume os custos de negociação de forma exclusiva e atribui o status público da organização, baseando-se na lei, na formalidade; limitando e regulando os sindicatos, todavia concedendo os benefícios. Aliás, o título de seu livro Capitalismo Desorganizado, se remete (p.231) exatamente a esta dinâmica de “autocontrole, disciplina e responsabilidade aos grupos de interesse e tornar mais prognosticável e cooperativa a interação entre interesses organizados, por um lado, e o Legislativo e o Executivo do governo, por outro (…) a dinâmica do capitalismo organizado precisava ser reorganizada”. A reorganização é certamente tensa e complexa e envolve áreas limites que os atores precisam estar atentos; a análise aqui faz um esforço de crítica a Hoffa no sentido de que, pelo fim de sua trajetória, o líder sindicalista, que já estivera preso, passou a não observar estes limites e na tentativa de retomar sua posição de mando no sindicato acabou por superestimar seus poderes e influência e ouvir a seguinte frase: “Você não pode enfrentar a Casa Branca”.

                  Por ser normatizado, como exposto no parágrafo anterior, Offe lida com graus de corporativismo e status que vão modelando a organização, perpassando status de recursos (dependência ou não de financiamento do Estado), representações (assuntos que cabem representação) e procedimentos internos (autonomia e formalizações). É provável que esteja nesta linha de leitura de argumentação crítica o fato de a história de Jimmy Hoffa ter sido “manchada” por denúncias de corrupção e até por uma condenação por fraude; a teoria não prevê a corrupção e os sistemas de controle internos às organizações. Para um fim crítico a esta análise, propõe-se entender Hoffa como um caminho possível para se criticar o tamanho que as associações podem chegar e questionar quais seriam de fato os instrumentos de controle efetivo destas gigantes organizações, tanto por parte do Estado, como por parte de seus afiliados representados.  

 

 BIBLIOGRAFIA

SCHMITTER, Philippe. (1992), The Consolidation of Democracy and Representation of Social Groups in American Behavioral Scientist, vol. 35.

OFFE, Claus. (1989), Capitalismo Desorganizado. São Paulo, Editora Brasiliense. 

 

ANÁLISE DO FILME HOFFA – UM HOMEM, UMA LENDA A PARTIR DA ÓTICA NEO-CORPORATIVISTA

ERIC VELLONE COLÓ

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